
PERCY JACKSON E OS OLIMPIANOS 06

OS ARQUIVOS DO SEMIDEUS

RICK RIORDAN





TRADUO   DE
LUCIANA   BASTOS   FIGUEIREDO


2009



                                 Sinopse:

JOVENS SEMIDEUSES:               preparem-se para ter acesso a
arquivos altamente sigilosos. Compilado pelo escriba snior do
Acampamento Meio-Sangue, o Sr. Rick Riordan, o contedo su-
persecreto apresentado em Os arquivos do semideus inclui os re-
latrios de trs das mais perigosas aventuras de Percy Jackson,
informaes valiosas conseguidas em entrevistas com os mais
importantes heris da saga, um utilssimo mapa do acampamento
e muito, muito mais. Leiam e tornem-se especialistas no universo
dos deuses e heris do Olimpo.

      Este livro contm alguns fatos, fotos e informaes que no livro original
     no contm, e todos foram disponibilizados atravs de outros blogs.

                         Disponibilizao e Digitalizao:
                                     Creditos:
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                                                 Boa Leitura!!!
___


Para Otto e Noah, meus sobrinhos semideuses.





SUMRIO

Carta do Acampamento Meio-Sangue        
Percy Jackson e a quadriga roubada        
Percy Jackson e o drago de bronze        
Entrevista com Connor e Travis Stoll,         filhos de Hermes
Entrevista com Clarisse La Rue, filha de Ares        
Entrevista com Annabeth Chase, filha de Atena        
Entrevista com Grover Underwood, stiro        
Entrevista com Percy Jackson, filho de Poseidon
Mapa do Acampamento Meio-Sangue        
Mala de Annabeth Chase para o acampamento        
Percy Jackson e a escada de Hades        
Palavras-cruzadas olimpianas        
Caa-palavras do Olimpo        
Os doze deuses olimpianos + 2        
Respostas dos passatempos        




Querido jovem semideus,

Se voc est lendo este livro, s posso me desculpar. Sua 
vida est prestes a ficar muito perigosa.
A essa altura, voc provavelmente j descobriu que no  
um mortal comum. Este livro foi feito para dar a voc 
uma viso privilegiada do mundo dos semideuses, que 
nenhuma criana humana seria autorizada a ter. Gomo 
escriba snior do Acampamento Meio-Sangue, espero 
que as informaes supersecretas aqui contidas dem 
algumas dicas e ideias que possam manter voc vivo 
durante seu treinamento.
Os arquivos do semideus contm trs das mais perigosas 
aventuras de Percy Jackson, nunca antes registradas. Voc 
saber como ele conheceu os imortais e terrveis filhos de 
Ares. Conhecer a verdade sobre o drago de bronze, h 
muito tido apenas como uma lenda do Acampamento 
Meio-Sangue. E descobrir como Hades adquiriu uma 
nova arma secreta e como Percy foi forado a ter uma 
participao no desejada na sua criao. Essas histrias 
no devem aterroriz-lo, mas  importante voc saber 
quo periculosa a vida de um heri pode ser.
Quiron tambm me deu permisso para divulgar 
entrevistas confidenciais com alguns de nossos mais 
importantes campistas, incluindo Percy Jackson, 
Annabeth Chase e Grover Underwood. Por favor, tenha 
em mente que as entrevistas foram dadas 
confidencialmente. Passe essas informaes para 
qualquer no semideus e voc poder encontrar Clarisse 
avanando na sua direo com a lana eltrica dela. 
Acredite em mim, voc no quer isso.
Finalmente, inclui ilustraes para ajud-lo a se orientar. 
Voc encontrar retratos de vrias personalidades do 
Acampamento Meio-Sangue para que possa reconhec-
las quando as encontrar pessoalmente. Annabeth Chase 
permitiu que mostrssemos sua mala para que voc 
pudesse ter uma ideia do que levar em seu primeiro 
vero. H ainda um mapa do acampamento, o qual 
espero que o ajude a no se perder nem ser engolido por 
monstros.
Estude bem estas pginas, porque suas prprias aventuras 
esto apenas comeando. Que os deuses estejam com 
voc, jovem semideus!

Um abrao afetuoso,

PERCY JACKSON e a Quadriga Roubada

Eu estava no quinto tempo, na aula de cincias, quando 
ouvi sons vindos de fora.
SCRAUC! AU! SCRICH! EIA!
Era como se algum estivesse sendo atacado por uma 
galinha possuda. E, acredite, essa  uma situao que j 
vivi. Ningum mais pareceu notar o tumulto. Estvamos 
no laboratrio, e todo mundo estava conversando, ento, 
no foi difcil olhar pela janela enquanto fingia que lavava 
meu bquer.
Como eu suspeitava, havia uma garota no beco 
empunhando uma espada. Ela era alta e musculosa como 
uma jogadora de basquete, tinha cabelos castanhos 
oleosos e usava jeans, coturnos e jaqueta de brim. Estava 
golpeando um bando de pssaros pretos do tamanho de 
corvos. Havia penas presas as suas roupas em vrios 
lugares. Um corte acima de seu olho esquerdo sangrava. 
Enquanto eu a observava, um dos pssaros lanou uma 
pena como se fosse uma flecha, que se alojou no ombro 
dela. Ela praguejou e tentou acertar o animal, mas ele 
voou para longe.
Infelizmente, reconheci a garota. Era Clarisse, minha 
antiga inimiga no acampamento para semideuses. Ela cos-
tumava passar o ano inteiro no Acampamento Meio-San-
gue. Eu no tinha idia do que Clarisse fazia no Upper 
East Side no meio de um dia de aula, mas, obviamente, 
ela estava com problemas. E no ia aguentar por muito 
mais tempo.
Fiz a nica coisa que podia.
        Sra. White  chamei , posso ir ao banheiro? Acho 
que vou vomitar.
Sabe quando os professores ensinam que as palavras 
mgicas so: por favor! Isso no  verdade. A palavra 
mgica  vomitar. Ela tira voc da sala de aula mais rpido 
do que qualquer outra coisa.
        V!  respondeu a sra. White.
Corri para a porta, tirando os culos de proteo, as luvas 
e o avental do laboratrio. Ento saquei minha melhor 
arma: uma caneta esferogrfica chamada Contracorrente.
Ningum me parou nos corredores. Sa pelo ginsio. 
Cheguei ao beco a tempo de ver Clarisse acertar um 
pssaro demonaco com a lateral da espada como numa 
rebatida de beisebol. O pssaro guinchou e voou para 
longe em espiral, batendo na parede de tijolos e 
escorregando para dentro de uma lixeira. Mesmo assim, 
ainda havia uma dzia deles em volta dela.
        Clarisse!  gritei.
Ela me lanou um olhar furioso, descrente.
        Percy? O que voc est fazendo...
Ela foi interrompida por uma saraivada de penas que 
zuniram sobre sua cabea e espetaram-se na parede.
        Essa  a minha escola.
        Que sorte a minha  Clarisse resmungou, mas estava 
muito ocupada para reclamar mais.
Destampei minha caneta, que se tornou uma espada de 
bronze de um metro de comprimento, e entrei na batalha 
golpeando os pssaros e desviando as flechas com a 
lmina. Juntos, Clarisse e eu atacamos e atingimos os 
pssaros at que todos fossem reduzidos a pilhas de penas 
no cho.
Ns dois respirvamos com dificuldade. Eu tinha alguns 
arranhes, mas nada, alm disso. Arranquei do meu 
brao uma pena. Ela no tinha me perfurado muito. Se 
no fosse venenosa, eu ficaria bem. Tirei um saquinho de 
ambrsia do bolso da jaqueta, onde sempre o mantinha 
para emergncias, parti um pedao ao meio e ofereci um 
pouco a Clarisse.
        No preciso da sua ajuda  murmurou ela, mas pegou 
a ambrosia mesmo assim.
Engolimos alguns pedaos, mas no muitos, j que a 
comida dos deuses pode queimar at as cinzas se ingerida 
em excesso. Acho que  por isso que no h muitos 
deuses gordos. De qualquer forma, em poucos segundos 
nossos cortes e arranhes desapareceram.
Clarisse colocou sua espada na bainha e bateu a sujeira da 
jaqueta.
        Ento... a gente se v.
        Espere a!  retruquei.  Voc no pode ir embora 
assim.
        Claro que posso.
        O que est acontecendo? O que est fazendo fora do 
acampamento? Por que aqueles pssaros estavam 
perseguindo voc?
Clarisse me empurrou, ou tentou me empurrar. Eu estava 
bastante acostumado com seus truques, ento apenas dei 
um passo para o lado e deixei que ela passasse direto por 
mim.
        Vamos l  insisti.  Voc quase foi morta na minha 
escola. Isso agora virou assunto meu.
        No virou, no!
        Deixe eu ajudar voc.
Ela deu um breve suspiro. Senti que realmente queria me 
bater. Mas, ao mesmo tempo, havia desespero em seus 
olhos, como se ela estivesse com srios problemas.


        So meus irmos  comeou ela.  Eles esto 
aprontando comigo.
        Ah  respondi, sem muita surpresa. Clarisse tinha 
muitos irmos no Acampamento Meio-Sangue. Todos 
implicavam uns com os outros. Acho que isso era 
esperado, j que so filhos e filhas do deus da guerra, 
Ares.  Que irmos? Sherman? Mark?
        No  respondeu ela, parecendo assustada como eu 
nunca tinha visto.  Meus irmos imortais. Phobos e 
Deimos.

Sentamos num banco do parque enquanto Clarisse me 
contava a histria. Eu no estava muito preocupado em 
voltar para a escola. A sra. White chegaria  concluso de 
que a enfermeira teria me mandado para casa, e o sexto 
tempo era aula de trabalhos manuais. O sr. Bell nunca 
fazia chamada.
        Ento me deixe entender isso direito. Voc pegou o 
carro do seu pai para dar uma volta e agora ele sumiu.
        No  um carro  rosnou Clarisse.   uma quadriga 
de guerra! E ele me disse que pegasse. E como... um 
teste. Eu deveria traz-la de volta ao pr do sol. Mas...
        Seus irmos roubaram o carro de voc.
        Roubaram a quadriga  corrigiu ela.  Normalmente, 
so eles que a guiam, entende? E no gostam que 
ningum mais o faa. Ento, roubaram a quadriga e me 
perseguiram com esses pssaros idiotas que disparam 
flechas.
        Os animais de estimao do seu pai? 
Ela assentiu, chateada.
        Eles guardam o templo. De qualquer forma, se eu no 
encontrar a quadriga...
Parecia que ela estava prestes a ter um ataque de nervos. 
Eu no a culpo. J vi seu pai, Ares, ficar irritado, e no foi 
uma viso agradvel. Se Clarisse o decepcionasse, ele 
pegaria pesado com ela. Muito pesado.
        Vou ajudar voc  ofereci.
        Por que faria isso? Eu no sou sua amiga  devolveu 
ela, irritada.
No pude argumentar diante daquilo. Clarisse tinha agido 
mal comigo um milho de vezes, mas, ainda assim, eu 
no gostava da idia de ela ou qualquer outra pessoa estar 
na mira de Ares. Eu tentava descobrir como explicar isso 
a ela quando ouvimos uma voz masculina.
- Ah, olhe s. Acho que ela andou chorando!
Um garoto mais velho estava encostado num telefone 
pblico. Usava jeans surrado, camiseta preta e jaqueta de 
couro, e uma bandana cobria seus cabelos.


Tinha uma faca presa ao cinto. Seus olhos eram da cor de 
chamas.
        Phobos.  Clarisse cerrou os punhos.  Onde est a 
quadriga, seu idiota?
        Voc a perdeu  provocou ele.  No pergunte a 
mim.
        Seu...
Clarisse desembainhou a espada e partiu para o ataque, 
mas Phobos desapareceu bem no meio do golpe e a 
lmina acertou o poste do telefone pblico.
Ele apareceu no banco ao meu lado. Estava rindo, mas 
parou quando encostei a ponta de Contracorrente em sua 
garganta.
         melhor voc devolver aquela quadriga  eu disse a 
ele.  Antes que eu me irrite.
Phobos me olhou com desprezo e tentou parecer duro, 
ou to duro quanto algum pode ficar com uma espada 
na garganta.
        Quem  o seu namoradinho, Clarisse? Agora voc 
precisa de ajuda para vencer suas batalhas?
        Ele no  meu namorado!  Com um puxo, Clarisse 
tirou sua espada do poste.  No  nem meu amigo. Esse 
 Percy Jackson.
Algo mudou na expresso de Phobos. Ele pareceu 
surpreso, talvez at nervoso.
        O filho de Poseidon? Aquele que deixou papai 
furioso? Ah, isso  muito bom, Clarisse. Voc est 
andando com um arqui-inimigo?
        Eu no estou andando com ele!
Os olhos de Phobos brilharam num vermelho bem vivo.
        Por favor, no!  gritou Clarisse. Ela golpeou o ar 
como se estivesse sendo atacada por insetos invisveis.
        O que est fazendo com ela?  eu quis saber. Clarisse 
se afastou para a rua, balanando sua espada 
furiosamente.
        Pare com isso!  eu disse a Phobos.
Apertei minha espada um pouco mais fundo em sua 
garganta, mas ele simplesmente sumiu, reaparecendo per-
to do telefone pblico.
        No se anime tanto, Jackson  disse Phobos.  S 
mostrei a ela aquilo de que ela tem medo.
O brilho desapareceu dos seus olhos.
Clarisse se curvou, respirando com dificuldade.
        Seu desgraado  arfou ela.  Eu vou... eu vou pegar 
voc.
Phobos se virou para mim.
        E quanto a voc, Percy Jackson? O que voc teme? 
Sabe, vou descobrir. Eu sempre descubro.
        Devolva a quadriga.  Tentei manter minha voz calma. 
 Enfrentei seu pai uma vez. Voc no me assusta.
        Nada a temer alm do medo em si. No  o que 
dizem?  Phobos riu.  Bom, deixe eu contar um 
segredinho a voc, meio-sangue. Eu sou o medo. Se voc 
quer a quadriga, venha pegar. Est sobre as guas. Voc 
vai encontr-la onde vivem os animaizinhos selvagens, 
exatamente o tipo de lugar a que voc pertence.  Ele 
estalou os dedos e desapareceu numa cortina de fumaa 
amarela.
Preciso dizer: conheci muitos deuses inferiores e 
monstros de que no gostei, mas Phobos ganhou o 
prmio mximo. No gosto de valentes. Nunca pertenci 
 turma dos populares da escola, ento passei a maior 
parte da minha vida me defendendo de punks que 
tentavam amedrontar a mim e a meus amigos. A forma 
como Phobos riu de mim e fez Clarisse desmoronar s 
com o olhar... Queria dar uma lio nesse cara.
Ajudei Clarisse a se levantar. Seu rosto ainda estava 
coberto pelo suor.
        Agora voc quer ajuda?  perguntei.

Pegamos o metr preparados para novos ataques, mas 
ningum nos incomodou. Enquanto viajvamos, Clarisse 
me falou sobre Phobos e Deimos.
        Eles so deuses inferiores  explicou ela.  Phobos  o 
medo. Deimos  o pnico.
        Qual  a diferena?


Ela deu de ombros.
        Deimos  maior e mais feio, eu acho. Ele  bom em 
enlouquecer multides. Phobos  mais, digamos, pessoal. 
Ele consegue invadir a sua mente.
         da que vem a palavra, fobia!
        Sim  resmungou ela.  Ele tem muito orgulho disso. 
Todas aquelas fobias nomeadas em homenagem a ele. O 
idiota.
        E por que eles no querem que voc conduza a 
quadriga?
        Isso costuma ser um ritual apenas para os filhos 
homens de Ares, quando completam quinze anos. Eu sou 
a primeira menina a ter uma chance em muitos anos.
        Bom para voc.
        Diga isso a Phobos e a Deimos. Eles me odeiam. Eu 
tenho de levar aquela quadriga de volta ao templo.
        Onde  o templo?
        Per 86. O Intrepid.
        Ah.
Aquilo fazia sentido, pensei na hora. Na verdade, eu 
nunca estivera a bordo do antigo porta-avies, mas sabia 
que era usado como uma espcie de museu militar. 
Provavelmente, estava cheio de armas e bombas e outros 
brinquedos perigosos. Exatamente o tipo de lugar que um 
deus da guerra gostaria de frequentar.
        Talvez tenhamos cerca de quatro horas antes do pr do 
sol  supus.  Pode ser tempo suficiente, se acharmos a 
quadriga.
        Mas o que Phobos quis dizer com "sobre as guas"? 
Estamos numa ilha, pelo amor de Zeus. Pode estar em 
qualquer lugar!
        Ele disse alguma coisa sobre animais selvagens  
lembrei.  Animaizinhos selvagens.
        Um zoolgico?
Concordei. Um zoolgico sobre as guas pode ser o do 
Brooklyn, ou talvez... algum lugar de difcil acesso, com 
pequenos animais selvagens. Algum lugar onde ningum 
pensaria em procurar uma quadriga.
        Staten Island  sugeri.  H um pequeno zoolgico l.
        Talvez  respondeu Clarisse.  Esse parece o tipo de 
lugar fora do comum em que Phobos e Deimos 
esconderiam alguma coisa. Mas se estivermos errados...
        No temos tempo para estarmos errados.
Descemos na Times Square e pegamos o trem nmero 1 
para o centro de Manhattan, em direo ao cais das 
barcas.

Embarcamos para Staten Island s trs e meia da tarde, 
com um monte de turistas que lotavam as grades do 
deque superior, tirando fotografias conforme passvamos 
pela Esttua da Liberdade.
        Ele a esculpiu em homenagem  me  comentei, 
observando a esttua.
        Quem?  Clarisse olhou para mim com desdm.
        Bartholdi  respondi.  O cara que fez a Esttua da 
Liberdade. Ele era filho de Atena e projetou a esttua de 
forma que se parecesse com a me dele. Bom, foi o que 
Annabeth me contou.
Clarisse revirou os olhos. Annabeth era minha melhor 
amiga e tinha loucura por arquitetura e monumentos. 
Acho que, s vezes, sua fixao pelo assunto acabava me 
contaminando.
        Intil  Clarisse considerou.  Se no ajuda voc na 
batalha,  uma informao intil.
Eu poderia ter discutido com ela, mas, logo em seguida, a 
barca se inclinou como se tivesse batido em uma rocha. 
Os turistas escorregaram, derrubando uns aos outros. 
Clarisse e eu corremos para a frente do barco. A gua 
abaixo de ns comeou a borbulhar. Ento, a cabea de 
uma serpente marinha emergiu na baa.
O monstro era, no mnimo, to grande quanto o barco. 
Era cinza e verde, e possua uma cabea de crocodilo e 
dentes em formato de lminas afiadas. Cheirava como... 
bom, como alguma coisa que tivesse acabado de sair do


fundo das guas do porto de Nova York. Montado em 
seu pescoo, estava um garoto forte que usava uma 
armadura grega de cor preta. Seu rosto estava coberto de 
feias cicatrizes, e ele segurava uma lana.
        Deimos!  berrou Clarisse.
        Ol, irm!  Seu sorriso era quase to terrvel quanto 
o da serpente.  Que tal uma brincadeira?
O monstro rugiu. Os turistas gritaram e se dispersaram. 
No sei exatamente o que viram, a Nvoa geralmente 
evita que mortais vejam monstros em sua forma 
verdadeira. Mas, seja l o que tenham visto, deixou-os 
aterrorizados.
        Deixe-os em paz!  berrei.
        Ou o qu, filho do deus do mar?  Deimos 
desdenhou.  Meu irmo me disse que voc  um 
banana! Alm disso, eu amo pnico. Eu vivo em meio ao 
pnico!
Ele incitou a serpente a golpear a barca com a cabea, e, 
com o impacto, ela espalhou gua para trs. Alarmes 
dispararam. Passageiros se atropelaram ao tentar fugir. 
Deimos gargalhava de felicidade.
        Chega  murmurei.  Clarisse, agarre aqui.
        O qu?
        Agarre meu pescoo. Vamos dar uma volta.
Ela no protestou. Agarrou-se a mim e eu comecei a 
contar:
        Um, dois, trs... PULE!
Pulamos do deque superior direto para dentro da baa, 
mas ficamos embaixo d'gua s por um instante. Senti o 
poder do oceano tomar conta de mim. Induzi a gua a 
fazer um redemoinho em torno de ns, aumentando a 
velocidade at que surgssemos no topo de uma tromba--
d'gua de dez metros de altura. Ento nos conduzi 
diretamente ao monstro.
        Acha que consegue cuidar de Deimos?  berrei para 
Clarisse.
        Eu pego ele!  respondeu ela.  S me faa descer dez 
metros.
Avanamos rapidamente em direo  serpente. Assim 
que ela exps sua presa, desviei a tromba-d'gua para o 
lado e Clarisse pulou. Ela foi de encontro a Deimos e os 
dois caram na gua.
A serpente veio atrs de mim. Rapidamente, virei a 
tromba-d'gua para encar-la. Ento, reuni todo o meu 
poder e induzi a gua a subir cada vez mais.
        uouuuu!
Milhes de litros de gua salgada atingiram o monstro. 
Pulei em sua cabea, destampei Contracorrente e cortei 
com toda a minha fora o pescoo da criatura. O monstro 
rugiu. Sangue verde jorrou da ferida, e a serpente 
afundou nas ondas.


Mergulhei e observei a criatura enquanto ela recuava em 
direo ao mar aberto. Isto  bom nas serpentes 
marinhas: elas se tornam bebs gigantes quando esto 
feridas.
Clarisse emergiu perto de mim; cuspindo e tossindo. 
Nadei at ela e a agarrei.
        Voc pegou Deimos? 
Clarisse balanou a cabea.
        O covarde desapareceu enquanto lutvamos. Mas 
tenho certeza de que o veremos de novo. E a Phobos 
tambm.
Os turistas ainda corriam em pnico pela barca, mas no 
havia sinais de ningum ferido. O barco no parecia estar 
danificado. Decidi que no devamos ficar ali. Segurei 
Clarisse pelo brao e fiz com que as ondas nos levassem 
para Staten Island.
No oeste, o sol se punha sobre a costa de Jersey. Nosso 
tempo se esgotava.

Eu nunca tinha passado muito tempo em Staten Island. 
Percebi que era maior do que eu imaginava e no muito 
divertida para caminhadas. As ruas seguiam trajetos 
confusos e tudo parecia ficar no alto. Eu estava seco 
(nunca me molho no oceano, a menos que eu queira), 
mas as roupas de Clarisse ainda pingavam. Ela deixava 
pegadas imundas pela calada e o motorista do nibus 
no nos deixou entrar.
        No vamos conseguir chegar a tempo  observou ela.
        Pare de pensar assim.  Tentei parecer otimista, mas 
eu tambm comeava a duvidar. Gostaria que tivssemos 
tido reforos. Dois semideuses contra dois deuses 
inferiores j no era uma disputa justa, e eu no tinha 
certeza do que faramos quando encontrssemos Phobos 
e Deimos ao mesmo tempo. Ficava relembrando o que 
Phobos tinha dito: "E quanto a voc, Percy Jackson? O 
que voc teme? Sabe, vou descobrir."
Depois de nos arrastarmos at a metade da ilha, de 
passarmos por vrias casas de subrbio, algumas igrejas e 
um McDonalds, finalmente avistamos uma placa em que 
se lia ZOOLGICO. Viramos a esquina e seguimos pela 
rua sinuosa com algumas rvores em um dos lados at 
que chegamos  entrada.
A senhora da bilheteria nos observou com olhar de 
suspeita, mas, graas aos deuses, eu tinha dinheiro 
suficiente para pagar nossas entradas.
Andamos pelo viveiro dos rpteis e Clarisse parou de 
repente.
        L est ela.
Ela estava estacionada num cruzamento entre a 
fazendinha das crianas e o lago das lontras: uma enorme 
quadriga vermelha e dourada atrelada a quatro cavalos 
pretos. A quadriga era decorada com incrvel riqueza de 
detalhes. Seria bonita se todas as imagens no mostrassem 
pessoas morrendo d olorosamente. Os cavalos soltavam 
fogo pelas narinas.
Famlias com carrinhos de bebs passavam ao lado da 
quadriga como se ela no existisse. Acho que a Nvoa em 
torno dela devia estar muito forte, pois o nico disfarce da 
quadriga era um bilhete escrito  mo colado no peito de 
um dos cavalos em que se lia VECULO OFICIAL DO 
ZOOLGICO.
        Onde esto Phobos e Deimos?  sussurrou Clarisse, 
desembainhando sua espada.
No os via em lugar algum, mas isso s podia ser uma 
armadilha.
Eu me concentrei nos cavalos. Normalmente, consigo 
falar com cavalos, j que meu pai os criou. Ei, cavalos, 
labaredas legais essas. Venham aqui!, chamei.
Um deles relinchou desdenhosamente. Certo, consegui 
entender seus pensamentos. Ele me chamou de alguns 
nomes que no posso repetir.
        Vou tentar pegar as rdeas  Clarisse avisou.  Os 
cavalos me conhecem, me d cobertura.
        Tudo bem.
Eu no estava certo de como deveria dar cobertura a ela 
com a espada, mas mantive meus olhos bem abertos 
enquanto Clarisse se aproximava da quadriga. Ela andou 
em volta dos cavalos, quase na ponta dos ps. E congelou 
quando uma senhora passou com uma garotinha de uns 
trs anos de idade.
        Cavalinho pegando fogo!  disse a menina.
        No seja boba, Jessie  a me respondeu com uma 
voz confusa.  Isso  um veculo oficial do zoolgico.
A garotinha tentou argumentar, mas a me agarrou sua 
mo e elas continuaram andando. Clarisse chegou perto 
da quadriga. A mo dela estava a quinze centmetros do 
arreio quando os cavalos empinaram, relinchando e 
soltando chamas. Phobos e Deimos apareceram na 
quadriga, os dois agora vestidos com negras armaduras de 
guerra. Phobos deu uma risada, seus olhos vermelhos 
brilhando. As feies assustadoras de Deimos pareciam 
ainda mais terrveis de perto.
        A caada comeou!  gritou Phobos. Clarisse tombou 
para trs enquanto ele chicoteava os cavalos e conduzia a 
quadriga diretamente para cima de mim.
Bom, agora eu gostaria de poder contar a vocs que 
cometi um ato herico, como permanecer parado diante 
um grupo feroz de cavalos lana-chamas munido somente 
com a minha espada. Mas a verdade  que eu fugi. Pulei 
uma lata de lixo e uma grade, mas no houve meio de eu 
ser mais rpido que a quadriga. Ela foi de encontro  gra-
de logo atrs de mim, escavando tudo pelo seu caminho.
        Percy, cuidado!  gritou Clarisse, como se eu 
precisasse que algum me dissesse aquilo.
Saltei e pousei numa ilha de pedra no meio da rea das 
lontras. Fiz com que a gua formasse uma coluna para 
fora do lago e se jogasse sobre os cavalos, apagando 
temporariamente suas chamas e deixando-os confusos. As 
lontras no ficaram felizes com isso. Elas tagarelaram e 
gritaram, e entendi que era melhor sair da sua ilha bem 
rpido, antes que mamferos marinhos enfurecidos come-
assem a me perseguir tambm.
Corri enquanto Phobos xingava e tentava controlar seus 
cavalos. Clarisse aproveitou a chance para pular nas costas 
de Deimos justamente quando ele comeava a empunhar 
sua lana. Os dois saltaram da quadriga no momento em 
que ela tombou para a frente.
Pude ouvir Deimos e Clarisse comearem a lutar, espada 
contra espada. Mas eu no tinha tempo para me 
preocupar com isso porque Phobos estava me 
perseguindo novamente. Avancei rapidamente em 
direo ao aqurio com a quadriga em meu encalo.
        Ei, Percy!  provocou Phobos.  Tenho uma coisa 
para voc!
Olhei para trs e vi a quadriga derreter e os cavalos se 
transformarem em ao, envolvendo uns aos outros como 
se bonecos de barro estivessem sendo retrabalhados. A 
quadriga se remodelou em uma caixa preta de metal com 
a parte de baixo como a de um trator, uma pequena torre 
e um longo cano de arma. Um tanque de guerra. Reco-
nheci por causa de uma pesquisa que tivera de fazer para 
a aula de histria. Phobos dava risadas para mim do alto 
de um tanque da Segunda Guerra Mundial.
 Diga "x"!  disse ele.
Rolei para o lado quando a arma disparou.
CA-BUUUM! Um quiosque de suvenires explodiu, e 
bichos de pelcia, canecas de plstico e cmeras 
descartveis voaram em todas as direes. Enquanto 
Phobos recarregava sua arma, eu me levantei e mergulhei 
no aqurio.
Eu queria me cercar de gua. Isso sempre aumentava 
meu poder. Alm do mais, era possvel que Phobos no 
conseguisse fazer a quadriga passar pela porta. Claro que, 
se ele explodisse tudo, no faria diferena...
Corri pelas salas iluminadas por uma estranha luz azul-
clara vinda dos tanques de exposio de peixes. Spias, 
peixes-palhaos e enguias, todos me encararam  medida 
que eu passava correndo por eles. Filho do deus do mar! 
Filho do deus do mar!, eu podia ouvir suas pequenas 
mentes sussurrarem.  timo quando lulas o consideram 
uma celebridade.
Parei no final do aqurio para escutar. No ouvi nada. E 
ento... vrum, vrum. Um tipo diferente de motor.
Olhei sem acreditar quando Phobos apareceu pilotando 
uma Harley-Davidson. Eu j tinha visto aquela moto: seu 
tanque de combustvel decorado com chamas, seus 
coldres com espingardas, seu assento de couro parecido 
com pele humana. Aquela era a mesma moto que Ares 
pilotava quando o vi pela primeira vez, mas nunca 
imaginei que ela era apenas outra forma para sua 
quadriga de guerra.
 Oi, perdedor  Phobos me cumprimentou puxando 
uma enorme espada da bainha.  Hora de ficar com 
medo.
Empunhei minha espada, determinado a encar-lo. 
Ento, os olhos de Phobos incandesceram e cometi o 
erro de olhar dentro deles.
De repente, eu estava num lugar diferente. Era o 
Acampamento Meio-Sangue, meu lugar favorito em todo 
o mundo, e ele estava em chamas. A floresta pegava fogo. 
Saa fumaa dos chals. As colunas gregas do pavilho do 
refeitrio haviam tombado e a Casa Grande era uma 
runa ardente. Meus amigos, ajoelhados, imploravam. 
Annabeth, Grover e todos os outros campistas.
Salve a gente, Percy!, eles choramingavam. Faa a 
escolha!
Fiquei paralisado. Era o momento que sempre temi: a 
profecia que deveria ser cumprida quando eu 
completasse dezesseis anos. Eu teria de escolher entre 
salvar ou destruir o Monte Olimpo.
Agora chegara o momento e eu no tinha a menor idia 
do que fazer. O acampamento queimava. Meus amigos 
me encaravam, pedindo ajuda. Meu corao estava 
disparado. Eu no podia me mover. E se eu fizesse a 
coisa errada?
Ento, ouvi as vozes dos peixes do aqurio. Filho do deus 
do mar! Acorde!
Subitamente, senti o poder dos oceanos me dominar 
novamente, milhares de litros de gua salgada e centenas 
de peixes tentavam chamar minha ateno. Eu no estava 
no acampamento. Era uma iluso. Phobos me mostrara 
meu temor mais profundo.
Pisquei e vi a espada de Phobos vindo na direo da 
minha cabea. Empunhei Contracorrente e bloqueei o 
golpe segundos antes que ele me partisse em dois.
Contra-ataquei e acertei Phobos no brao. Icor dourado, 
o sangue dos deuses, ensopou sua camisa.
Phobos rosnou e avanou sobre mim. Desviei facilmente. 
Sem o seu poder do medo, Phobos no era nada. Ele no 
era nem um guerreiro razovel. Eu o contive, golpeando 
seu rosto e deixando-lhe um corte na bochecha. Quanto 
mais irritado ele ficava, mais desajeitadamente agia. Eu 
no podia mat-lo. Ele era imortal. Mas no era possvel 
saber disso levando em conta somente sua expresso. O 
deus do medo parecia amedrontado.
Finalmente, chutei-o contra a fonte de gua. Sua espada 
foi parar no banheiro das mulheres. Agarrei-o pelos 
cordes da sua armadura e o levantei at a altura do meu 
rosto.
        Voc vai desaparecer agora  ordenei.  Vai sair do 
caminho de Clarisse. E se eu o vir de novo, vou lhe dar 
uma cicatriz maior e num lugar muito mais doloroso!
Ele engoliu em seco.
        Haver uma prxima vez, Jackson!  E se dissolveu 
numa fumaa amarela.
Eu me virei para o tanque de exposio de peixes.
        Valeu, pessoal!
Ento, observei a moto de Ares. Eu nunca havia pilotado 
uma superpoderosa quadriga Harley-Davidson de guerra. 
Quo difcil poderia ser? Subi na moto, acionei a ignio 
e sa do aqurio para ajudar Clarisse.

No tive problemas para encontr-la, apenas segui o rastro 
de destruio. Grades foram derrubadas e animais 
corriam livremente. Texugos e lmures estavam 
explorando a pipo-queira. Um leopardo gordo 
espreguiava-se num banco do parque, rodeado de penas 
de pombo.
Estacionei a moto prximo  fazendinha das crianas, e l 
estavam Deimos e Clarisse na rea das cabras. Clarisse 
estava de joelhos. Corri at ela, mas parei subitamente 
quando vi como Deimos havia mudado sua forma. Agora 
ele era Ares: o grande deus da guerra, usando couro 
preto e culos de sol. Todo o seu corpo soltava fumaa 
furiosamente enquanto ele levantava o punho para 
Clarisse.
Voc me decepcionou de novo!  o deus da guerra 
elevou a voz.  Eu a avisei do que aconteceria!
Ele tentou acert-la, mas Clarisse arrastou-se para longe.
        No! Por favor!  clamou ela.
        Garota boba!
        Clarisse!  gritei.  Isso  uma iluso. Enfrente-o! 
A forma de Deimos vacilou.
        Eu sou Ares!  insistiu ele.  E voc  uma garota 
desprezvel! Eu sabia que voc me decepcionaria. Agora 
vai sofrer minha ira.
Eu queria avanar e lutar com Deimos, mas, de alguma 
maneira, sabia que no podia ajudar. Clarisse precisava 
fazer isso. Esse era o seu maior medo. Ela teria de super-
lo sozinha.
- Clarisse  chamei. Ela se virou e eu tentei sustentar seu 
olhar.  Enfrente-o  eu disse.  Isso  s fachada. 
Levante-se!
        Eu... eu no consigo.
        Sim, voc consegue. Voc  uma guerreira. Levante! 
Ela hesitou. E ento comeou a se erguer.
        O que est fazendo?  Ares elevou a voz.  Humilhe-
se por misericrdia, garota!
Clarisse deu um breve suspiro.
        No  disse ela, calmamente.
        O QU?
        Estou cansada de ser amedrontada por voc.  Ela 
empunhou a espada.
Deimos atacou, mas Clarisse se desviou do golpe. Ela 
cambaleou, mas no caiu.
        Voc no  Ares  afirmou ela.  Voc no  nem 
mesmo um bom guerreiro.
Deimos rosnou de frustrao. Ele atacou de novo, 
Clarisse estava preparada. Ela o desarmou e o atingiu no 
ombro, no to profundamente, mas o suficiente para 
ferir mesmo um deus inferior.
Ele uivou de dor e comeou a incandescer.
        No olhe!  avisei a Clarisse.
Desviamos nossos olhos enquanto Deimos explodia em 
luz dourada, sua verdadeira forma divina, e desaparecia.
Estvamos sozinhos, exceto pelas cabras da fazendinha, 
que mordiscavam nossas roupas em busca de migalhas.
A moto se transformou novamente em uma quadriga 
puxada a cavalos.
Clarisse me observou cautelosamente. Ela limpou a palha 
e o suor do rosto.
Voc no viu isso. Voc nunca viu nada disso.
Eu dei uma risada.
        Voc se saiu bem.
Ela olhou para o cu, que ficava vermelho atrs das 
rvores.
        Suba na quadriga  disse ela.  Ainda temos uma 
longa viagem a fazer.

Alguns minutos depois, chegamos  estao das barcas de 
Staten Island e relembramos o bvio: estvamos numa 
ilha. A barca no transporta carros. Ou quadrigas. Ou 
motos.
        timo  resmungou Clarisse.  O que fazemos 
agora? Conduzimos essa coisa pela Ponte Verrazano?
Ns dois sabamos que no havia tempo. Existiam pontes 
para o Brooklyn e para Nova Jersey, mas ambos os 
caminhos exigiriam horas para levar a quadriga de volta a 
Manhattan. Mesmo se consegussemos induzir as pessoas 
a pensarem que aquilo era um carro normal.
Ento, tive uma idia.
Vamos pegar um caminho direto.
        O que voc quer dizer?  Clarisse franziu as 
sobrancelhas.
Fechei os olhos e comecei a me concentrar.
        Siga em frente. V!
Clarisse estava to desesperada que no hesitou. Ela 
gritou "Eia!" e chicoteou os cavalos. Eles avanaram em 
direo  gua. Imaginei o oceano se tornando slido, as 
ondas se transformando numa superfcie firme at 
Manhattan. A quadriga de guerra bateu na arrebentao, 
a respirao ardente dos cavalos espalhava fumaa ao 
nosso redor. Andamos por cima das ondas diretamente 
at o porto de Nova York.

Chegamos ao Per 86 bem no momento em que o cu 
ganhava a cor roxa. O USS Intrepid, templo de Ares, era 
uma enorme parede cinza de metal diante de ns, a pista 
de decolagem pontilhada de aeronaves e helicpteros. 
Estacionamos a quadriga na rampa e descemos dela. Pelo 
menos uma vez eu me sentia feliz por estar em terra 
firme. Concentrar-me em manter a quadriga sobre as 
ondas foi uma das coisas mais difceis que j fiz. Eu estava 
exausto.
         melhor eu sair daqui antes que Ares chegue  eu 
disse.
Clarisse concordou.
        Ele provavelmente mataria voc assim que o visse.
        Parabns  cumprimentei-a.  Acho que voc passou 
no seu teste de direo.
Ela enrolou as rdeas na mo.
        Sobre aquilo que voc viu, Percy. Aquilo de que eu 
tenho medo, quer dizer...
        No vou contar a ningum. 
Ela me olhou com desconforto.
        Phobos assustou voc?
        Sim. Vi o acampamento em chamas. Todos os meus 
amigos imploravam por ajuda, e eu no sabia o que fazer. 
Por um instante, no consegui me mover. Eu estava para-
lisado. Sei como voc se sentiu.
Ela baixou os olhos.
        Eu, hum... acho que eu devo dizer...  As palavras 
pareciam estar presas na sua garganta. No tinha certeza 
se algum dia na sua vida Clarisse dissera "obrigada".
        No precisa se incomodar  eu disse. Comecei 
a me afastar, mas ela me chamou.
        Percy?
        Sim?
        Quando voc, hum... teve aquela viso com seus 
amigos...
Voc era um deles  dei minha palavra.  S no conte 
a ningum, est bem? Ou vou ter de matar voc. Um 
sorriso fraco passou pelo rosto de Clarisse.
        A gente se v.
        A gente se v.
Eu me encaminhei para o metr. Aquele tinha sido um 
longo dia, e eu estava pronto para voltar para casa.


PERCY JACKSON E O Drago de Bronze

Um drago pode arruinar seu dia.
Confie em mim, como um semideus, j tive minha cota 
de experincias ruins. J apanhei, j fui arranhado, 
incendiado e envenenado. J lutei com drages de uma 
cabea, de duas, de oito, de nove e com um tipo com 
tantas cabeas que se tivesse parado para cont-las com 
certeza estaria morto.
Mas e aquela vez com o drago de bronze? 
Sinceramente, achei que eu e meus amigos viraramos 
rao de drago.

A noite comeou bem tranquila.
Era final de junho. Eu tinha retornado de minha mais 
recente misso havia umas duas semanas, e a vida no 
Acampamento Meio-Sangue estava voltando ao normal. 
Stiros perseguiam ninfas. Monstros uivavam na floresta. 
Os campistas pregavam peas uns nos outros, e o nosso 
diretor, Dionso, transformava em arbusto qualquer um 
que no se comportasse. Coisas tpicas de acampamento 
de vero.
Depois do jantar, os campistas ficaram conversando no 
pavilho do refeitrio. Estvamos todos empolgados 
porque a captura da bandeira daquela noite seria 
totalmente cruel.
Na noite anterior, o chal de Hefesto conseguira uma 
grande vitria. Eles capturaram a bandeira de Ares  com 
a minha ajuda, muito obrigado , o que significava que o 
chal de Ares viria atrs de sangue. Bem... eles sempre 
vm atrs de sangue, mas nessa noite estariam especial-
mente inspirados.
Na equipe azul estavam o chal de Hefesto, Apolo, 
Hermes e eu, o nico semideus no chal de Poseidon. 
Por ora, a m notcia era que Atena e Ares, ambos chals 
de deuses da guerra, estavam contra ns, na equipe 
vermelha, junto a Afrodite, Dioniso e Demetr. O chal 
de Atena guardava a outra bandeira, e minha amiga 
Annabeth era a sua capit.
Annabeth no  algum que voc gostaria de ter como 
adversria.
Logo antes do jogo, ela se virou para mim:
        Oi, Cabea de Alga.
        Quer parar de me chamar assim?
Ela sabe que odeio esse nome, principalmente porque 
nunca consegui responder  altura. Ela  a filha de Atena, 
o que no me d muitas opes. Quer dizer, "Cabea de 
Coruja" e "Sabidinha" no so insultos de verdade.
        Voc sabe que adora.
Ela bateu em mim com o ombro, o que imagino que era 
para ter sido um ato amigvel, mas ela usava uma 
armadura grega completa, ento, meio que doeu. Seus 
olhos cinzentos brilharam sob o elmo. Seu rabo de cavalo 
louro descia em cacho sobre um dos ombros. Era difcil 
algum ficar bonito numa armadura de combate, mas 
Annabeth conseguia.
         o seguinte  ela baixou seu tom de voz:  ns vamos 
destruir vocs esta noite, mas se voc escolher uma 
posio segura... como o flanco direito, por exemplo... 
Garanto que no ser to massacrado.
        Uau, obrigado  comecei , mas estou jogando para 
vencer.
Ela sorriu.
        A gente se v no campo de batalha.
Annabeth correu de volta para seus companheiros de 
equipe, que riram e a cumprimentaram tocando as mos 
espalmadas no alto. Eu nunca a tinha visto to feliz, como 
se a chance de me acertar fosse a melhor coisa que j 
acontecera a ela.
Beckendorf se aproximou com seu elmo embaixo do 
brao.
        Ela gosta de voc, cara.
        Com certeza  murmurei.  Gosta de mim como alvo.
        Que nada, elas sempre fazem isso. Se uma garota tenta 
matar voc, saiba que ela est na sua.
        Faz muito sentido. 
Beckendorf deu de ombros.
        Conheo essas coisas. Voc devia convid-la para os 
fogos.
No consegui descobrir se ele estava falando srio. 
Beckendorf era conselheiro-chefe de Hefesto. Era um 
cara enorme com uma carranca permanente, tinha 
msculos como os de um jogador de futebol americano 
profissional e as mos cheias de calos do trabalho nas 
forjas. Acabara de completar dezoito anos e ia para a 
Universidade de Nova York no outono. Por ele ser mais 
velho, eu costumava ouvi-lo sobre as coisas, mas a ideia 
de convidar Annabeth para os fogos do Quatro de Julho 
na praia  tipo, o maior programa do vero  fez meu 
estmago revirar.
Ento, Silena Beauregard, a conselheira-chefe de 
Afrodite, passou por ns. Beckendorf tinha uma no to 
secreta queda por ela havia trs anos. Os cabelos dela 
eram longos e pretos e os olhos, grandes e castanhos. 
Quando ela andava, os caras se viravam para olhar.
        Boa sorte, Charlie  disse ela. (Ningum nunca 
chamava Beckendorf pelo primeiro nome.)
Ela lanou para ele um sorriso brilhante e foi se juntar B 
Annabeth no time vermelho.
        Ah...  Beckendorf engoliu em seco. 
Dei um tapinha em seu ombro.
        Obrigado pelo conselho, cara. Que bom que voc  
to sbio com as garotas e tudo o mais. Venha. Vamos 
para a floresta.

Naturalmente, Beckendorf e eu ficamos com o trabalho 
mais perigoso.
Enquanto o chal de Apolo fazia a defesa com seus arcos, 
o chal de Hermes ocupava o meio da floresta para 
distrair os adversrios. Nesse meio-tempo, Beckendorf e 
eu exploraramos a rea do flanco esquerdo, localiza-
ramos a bandeira do inimigo, derrubaramos os defen-
sores e levaramos a bandeira de volta para o nosso lado. 
Simples.
Por que o flanco esquerdo?
        Porque Annabeth queria que eu fosse para o direito  
disse eu a Beckendorf.  O que significa que ela no 
quer que a gente v para o esquerdo.
Ele assentiu.
        Vamos nos preparar.
Beckendorf vinha trabalhando numa arma secreta para 
ns dois: uma armadura camuflada de bronze, encantada 
para se misturar ao ambiente. Se estivssemos diante de 
pedras, nossos peitorais, elmos e escudos ficariam cinza. 
Se estivssemos em frente a arbustos, o metal mudaria sua 
cor para um verde-folha. No era invisibilidade verdadei-
ra, mas teramos um disfarce muito bom, pelo menos  
distncia.
        Essa coisa levou uma eternidade para ser forjada  ele 
me disse.  No a estrague!
        Pode deixar, Capito.
Beckendorf rosnou. Eu diria que ele gostou de ter sido 
chamado de "capito". O restante dos campistas de 
Hefesto nos desejou boa sorte e ns nos embrenhamos 
na mata, ficando imediatamente marrons e verdes como 
as rvores.

Cruzamos o riacho que servia de fronteira entre as 
equipes. Ouvimos uma luta ao longe, espadas contra 
escudos. Notei um facho de luz vindo de alguma arma 
mgica, mas no vimos ningum.
        Nenhum guarda de fronteira?  Beckendorf 
sussurrou.  Estranho.
        Excesso de confiana  supus.
Mas fiquei incomodado. Annabeth era uma tima 
estrategista. No era do seu feitio ser desleixada com a de-
fesa, mesmo que sua equipe fosse maior que a nossa.
Avanamos territrio inimigo adentro. Eu sabia que 
precisvamos ser rpidos porque nossa equipe estava 
jogando na defesa, e isso no duraria para sempre. Os 
filhos de Apolo seriam superados mais cedo ou mais 
tarde. O chal de Ares no seria detido por uma coisinha 
como ircos.
Ns nos arrastamos pela base de um carvalho. Quase 
morri de susto quando o rosto de uma menina emergiu 
do tronco.
        Shhhh!  disse ela. E ento desapareceu atrs de uma 
raiz.
        Ninfas do bosque  resmungou Beckendorf.  Que 
irritante.
        No sou!  disse uma voz abafada vinda da rvore. 
Continuamos a avanar. Era difcil dizer exatamente onde 
estvamos. Alguns limites se mantinham, como o riacho, 
certos rochedos e algumas rvores muito antigas, mas a 
floresta tendia a se transformar. Acho que os espritos da 
natureza ficavam inquietos. Caminhos mudavam. rvores 
se moviam.
De repente, estvamos nas bordas de uma clareira. 
Percebi que estvamos encrencados quando vi a 
montanha de sujeira.
        Santo Hefesto  murmurou Beckendorf.  A Colina 
das Formigas.
Quis voltar e correr. Eu nunca havia visto a Colina das 
Formigas, mas tinha ouvido histrias dos campistas mais 
velhos. O monte que chegava quase ao topo das rvores 
 quatro histrias, no mnimo. Suas laterais eram 
perfuradas por tneis que se espalhavam para dentro e 
para fora onde milhares de...
        Myrmekos  murmurei.
Era "formigas" em grego antigo, mas aquelas coisas eram 
muito mais que isso. Elas fariam qualquer exterminador 
ter um ataque cardaco.
Os Myrmekos eram do tamanho de pastores alemes. 
Suas carcaas blindadas cintilavam em vermelho-sangue. 
Os olhos brilhavam como contas pretas e as mandbulas 
anavalhadas cortavam e estalavam. Alguns carregavam 
ramos de rvores. Outros levavam pedaos de carne crua, 
e eu no queria nem pensar em de onde aquilo vinha. A 
maioria carregava pedaos de metal: armaduras antigas, 
espadas, pratos que foram encontrando no caminho do 
pavilho do refeitrio at ali. Uma formiga estava arras-
tando a lustrosa capota preta de um carro esporte.
        Elas adoram metal brilhante  Beckendorf sussurrou. 
 Principalmente ouro. Ouvi dizer que elas tm mais 
ouro no ninho que Fort Knox.  Ele soou invejoso.
        Nem pense nisso.


        Cara, no estou pensando nada  prometeu ele.
        Vamos sair daqui enquanto ns... 
Seus olhos se arregalaram.
A quinze metros de distncia, duas formigas lutavam para 
arrastar um enorme pedao de metal em direo ao 
ninho. Era do tamanho de uma geladeira, todo feito de 
ouro e bronze reluzentes, com salincias e pontas pela 
lateral e um ramo de fios preso na base. As formigas gira-
ram a coisa e eu vi sua face.
Quase morri de susto.
        Aquela  uma...
        Shhh!  Beckendorf me puxou de volta para os 
arbustos.
        Mas aquela  uma...
        Cabea de drago  disse ele em tom reverente.
        Sim. Estou vendo.
O focinho era to longo quanto meu corpo. A boca 
estava aberta e mostrava dentes de metal, como os de um 
tubaro. A pele era uma combinao de escamas de ouro 
e de bronze e os olhos eram rubis to grandes quanto 
meus punhos. A cabea parecia ter sido cortada do corpo 
por mandbulas de formigas. Havia fios cortados, gastos e 
emaranhados.
A cabea tambm devia ser pesada, porque as formigas se 
esforavam, mas s conseguiam mov-la alguns 
centmetros a cada puxo.
        Se elas levarem a cabea at o monte, as outras 
ajudaro  disse Beckendorf.  Precisamos impedi-las.
        O qu?  perguntei.  Por qu?
        Este  um sinal de Hefesto. Venha!
Eu no sabia a que Beckendorf se referia, mas nunca o 
vira to determinado. Ele correu pela margem da clareira, 
sua armadura se confundindo com as rvores.
Eu estava prestes a segui-lo quando alguma coisa pontuda 
e fria pressionou meu pescoo.
        Surpresa  disse Annabeth, bem a meu lado. Ela 
devia estar usando seu bon mgico dos Yankees porque 
estava totalmente invisvel.
Tentei me mexer, mas ela colocou a faca embaixo do 
meu queixo. Silena surgiu da floresta com a espada 
desembainhada. Sua armadura de Afrodite era rosa e ver-
melha, cores escolhidas para combinar com as roupas e a 
maquiagem. Ela parecia uma Barbie Guerreira.
        Bom trabalho  disse ela a Annabeth.
Mos invisveis confiscaram minha espada. Annabeth 
tirou seu bon e apareceu diante de mim, com um sorriso 
presunoso.
        Garotos so fceis de seguir. Eles fazem mais barulho 
que um Minotauro apaixonado.
Senti meu rosto quente. Tentei relembrar os fatos na 
esperana de no ter dito nada embaraoso. Era 
impossvel saber por quanto tempo Annabeth e Silena 
nos espionaram.
- Voc  nosso prisioneiro  anunciou Annabeth.  
Vamos pegar Beckendorf e...
        Beckendorf!
Por meio segundo eu o tinha esquecido, mas ele ainda 
avanava, diretamente para a cabea do drago. J estava 
a doze metros de distncia. Ele no notara as garotas, ou o 
fato de que eu no estava atrs dele.
Vamos!  disse eu a Annabeth.
Ela me puxou de volta.
        Aonde voc pensa que vai, prisioneiro?
        Veja!
Ela olhou para a clareira e, pela primeira vez, pareceu se 
dar conta de onde estvamos. 
 Oh, Zeus...
Beckendorf saltou e atingiu uma das formigas. Sua espada 
tiniu contra a carapaa da coisa. A formiga se virou, 
estalando as pinas. Antes mesmo que eu pudesse avis-
lo, ela mordeu a perna de Beckendorf e ele caiu ferido 
no cho. Uma segunda formiga borrifou uma gosma em 
seu rosto, e Beckendorf gritou. Ele deixou a espada cair e 
esfregava os prprios olhos loucamente.
Eu me dirigi para alcan-lo, mas Annabeth me puxou de 
volta.
        No!
        Charlie!  berrou Silena.
        No!  disse Annabeth entre os dentes.  J  tarde 
demais!
        Do que voc est falando?  eu quis saber.  Ns 
precisamos...
Ento, notei mais e mais formigas se aproximando de 
Beckendorf... dez, vinte. Elas o agarraram pela armadura 
e o arrastaram to rpido em direo  colina que ele foi 
varrido para dentro do tnel e sumiu.
        No!  Silena empurrou Annabeth.  Voc deixou 
que elas levassem Charlie!
        No h tempo para discusso  disse Annabeth.  
Vamos!
Pensei que ela fosse nos liderar numa ao para salvar 
Beckendorf, mas em vez disso, ela correu para a cabea 
do drago, que as formigas haviam esquecido 
momentaneamente. Ela a agarrou pelos fios e comeou a 
arrast-la para a floresta.
        O que voc est fazendo!  eu quis saber.  
Beckendorf...
        Ajude-me  Annabeth rosnou.  Rpido, antes que 
elas voltem.
        Ah, meus deuses!  disse Silena.  Voc est mais 
preocupada com esse monte de metal do que com 
Charlie?
Annabeth girou nos calcanhares e a sacudiu pelos 
ombros.
        Escute, Silena! Aqueles so Myrmekos. Eles so como 
formigas-de-fogo, s que cem vezes pior. Eles picam 
injetando veneno. Eles borrifam cido. Eles se 
comunicam com todos os outros e enxameiam qualquer 
coisa que os ameace. Se avanssemos at l para ajudar 
Beckendorf, seramos arrastados para dentro tambm. 
Vamos precisar de ajuda  muita ajuda  para traz-lo de 
volta. Agora, agarre alguns fios e puxe!
No sabia o que Annabeth pretendia, mas eu j tinha 
vivido aventuras o bastante com ela para saber que devia 
haver uma boa razo para fazer o que ela dizia. Ns trs 
rebocamos a cabea de metal do drago para o meio da 
lloresta. Annabeth no nos deixou parar at que estivsse-
mos a quarenta e cinco metros da clareira. Ento, camos 
de cansao, suando e respirando com dificuldade.
Silena comeou a chorar.
        Ele provavelmente j est morto.
        No  Annabeth retrucou.  Elas no vo mat-lo 
agora. Temos cerca de meia hora.
        Como voc sabe disso?  perguntei.
        Li sobre os Myrmekos. Eles paralisam a presa para que 
possam amaci-la antes de...
Silena gemeu.
        Precisamos salv-lo!
        Silena, vamos salv-lo, mas preciso que voc se 
controle  disse Annabeth.  Existe uma chance.
        Chame os outros campistas  eu disse , ou Quron. 
Quron saber o que fazer.
Annabeth balanou a cabea.
        Eles esto espalhados por toda a floresta. Quando 
tivermos todos aqui de volta, poder ser tarde demais. 
Alm disso, nem mesmo todo o acampamento seria 
suficientemente forte para invadir a Colina das Formigas.
        E ento?
Annabeth apontou para a cabea do drago.
        T. Voc vai assustar as formigas com um grande 
boneco de metal?
         um autmato  informou ela.
Isso no fez com que eu me sentisse muito melhor. 
Autmatos eram robs de bronze mgicos feitos por 
Hefesto. A maioria deles eram mquinas assassinas enlou-
quecidas, e isso quando eram as boazinhas.
        E da?  s uma cabea. Est quebrado.
        Percy, esse no  um autmato qualquer  retrucou 
Annabeth.   o drago de bronze. Voc no conhece as 
histrias?
Eu a encarei, sem entender. Annabeth est no 
acampamento h muito mais tempo que eu. Ela 
provavelmente conhece toneladas de histrias que eu no 
conheo.
Os olhos de Silena se arregalaram.
        Voc est falando do antigo guardio? Mas essa  s 
uma lenda!
        Epa! Que antigo guardio? 
Annabeth inspirou profundamente.
        Percy, no tempo anterior ao pinheiro de Thalia, antes 
de o acampamento ter fronteiras mgicas para manter 
monstros afastados, os conselheiros tentaram inmeras 
maneiras diferentes para se proteger. A mais famosa foi o 
drago de bronze. O chal de Hefesto o fez com a 
bno de seu pai. Supostamente ele era to feroz e 
poderoso que manteve o acampamento a salvo por mais 
de uma dcada. E ento... h cerca de quinze anos, ele 
desapareceu na floresta.
        E voc acha que essa  a cabea dele?
        Tem de ser! Provavelmente os Myrmekos o 
desenterraram quando procuravam metais preciosos. Eles 
no puderam mover a coisa toda, ento, cortaram a 
cabea com os dentes. O corpo no pode estar muito 
longe.
        Mas elas separaram totalmente a cabea.  intil.
        No necessariamente.
Os olhos de Annabeth se estreitaram e eu podia jurar que 
seu crebro fazia um esforo extra.
        Ns poderamos reunir as partes. Se pudssemos ativ-
lo...
        Ele poderia nos ajudar a resgatar Charlie!  Silena 
concluiu.
        Espere a  disse eu.  So muitos "ses". Se ns o 
encontrarmos, se o reativarmos a tempo, se ele nos 
ajudar. Voc disse que essa coisa desapareceu h quinze 
anos?
Annabeth fez que sim.
        Alguns dizem que seu motor pifou pelo uso, ento ele 
foi para a floresta para se desativar. Ou que seu programa 
perdeu o controle. Ningum sabe.
        Voc quer reativar um drago de metal descontrolado?
        Ns precisamos tentar!  insistiu Annabeth.   a nica 
esperana para Beckendorf! Alm disso, este pode ser 
um sinal de Hefesto. O drago deve querer ajudar um 
dos filhos de Hefesto. Beckendorf ia querer que ns 
tentssemos.
No gostei da idia. Por outro lado, eu no tinha sugesto 
melhor. Nosso tempo estava acabando e Silena entraria 
em choque se no fizssemos alguma coisa logo. 
Beckendorf tinha dito algo sobre um sinal de Hefesto. 
Talvez estivesse na hora de descobrir.
        Certo  concordei.  Vamos em busca de um drago 
sem cabea.

Procuramos por uma eternidade. Ou talvez tenha sido 
apenas uma sensao, porque o tempo todo fiquei 
imaginando Beckendorf na Colina das Formigas, 
amedrontado e paralisado, enquanto um bando de seres 
em armaduras o cercavam, esperando que ele estivesse 
mais macio.
No era difcil seguir a trilha das formigas. Elas haviam 
arrastado a cabea do drago pela floresta, deixando Um 
sulco profundo na lama. E ns arrastamos a cabea de 
volta pelo caminho de onde as formigas tinham vindo.
Devamos ter percorrido uns vinte metros  e comecei a 
me preocupar com o nosso tempo , quando Annabeth 
disse: "Di immortales"
Chegamos  beira de uma cratera, como se alguma coisa 
tivesse aberto um buraco do tamanho de uma casa no 
cho. As laterais eram irregulares e pontilhadas de razes. 
Trilhas de formigas levavam ao fundo, onde um enorme 
amontoado de metal brilhava no meio da sujeira. Fios 
saam de um tronco de bronze em uma das extremidades.
        O pescoo do drago  conclu.  Voc acha que as 
formigas fizeram essa cratera?
Annabeth balanou a cabea.
        Parece mais com uma exploso de meteoros...
        Hefesto - disse Silena.  O deus deve ter 
desenterrado isso. Hefesto queria que ns 
encontrssemos o drago. Ele queria que Charlie...  Ela 
estava em choque.
        Venham  convoquei.  Vamos reconectar esse bad-
boy.
Levar a cabea do drago para o fundo foi fcil. Ela caiu 
direto pela descida e atingiu o pescoo com um sonoro e 
metlico BONK! Reconectar foi mais difcil.
Annabeth se enrolou com os fios e xingou em grego 
antigo.
        Precisamos de Beckendorf. Ele poderia fazer isso em 
segundos.
        A sua me no  a deusa dos inventores?  perguntei.
Annabeth me olhou furiosa.
        , mas isto  diferente. Sou boa com idias. No com 
mecnica.
        Se eu fosse escolher algum no mundo para recolocar 
minha cabea no lugar, escolheria voc.
Eu simplesmente soltei aquilo  para passar confiana a 
ela, eu acho , mas, imediatamente depois, percebi que a 
frase soara bem estpida.
        Awmmm...  Silena fungou e secou os olhos.  Percy, 
isso  to fofo!
Annabeth corou.
        Cale a boca, Silena. Passe a sua adaga para mim. 
Tive medo de que Annabeth fosse me esfaquear. Em vez 
disso, ela usou a adaga como uma chave de fenda para 
abrir um painel no pescoo do drago.
        Assim no vamos chegar a lugar algum  disse ela. 
Ento, ela comeou a unir os fios de bronze celestial.
Isso levou um longo tempo. Muito longo.
Calculei que, quela altura, a captura da bandeira devia 
ter acabado. Imaginei quanto tempo levaria at que os 
outros campistas dessem pela nossa falta e viessem nos 
procurar. Se os clculos de Annabeth estavam corretos (e 
eles sempre estavam), provavelmente Beckendorf teria 
ainda cinco ou dez minutos antes de as formigas o 
atacarem.
Finalmente, Annabeth se levantou e expirou o ar de seus 
pulmes com fora. Suas mos estavam arranhadas e 
sujas. As unhas estavam estragadas. Havia uma linha mar-
rom em sua testa, onde o drago cuspira graxa.
        Certo. Est pronto, eu acho...
        Voc acha!  Silena perguntou.
Tem de estar pronto  disse eu.  Nosso tempo est 
acabando. Como ns, ahn, ligamos isso? Ele tem algum 
boto ou coisa parecida?
Annabeth apontou para os olhos de rubi do drago.
        Eles se movem em sentido horrio. Acho que 
devemos gir-los.
        Se algum rodasse meus globos oculares, eu acordaria 
 concordei.  E se ele se enfurecer com a gente?
        Ento... estamos mortos  Annabeth respondeu.
        timo  devolvi.  Isso  animador.
Juntos, giramos os olhos de rubi do drago. 
Imediatamente eles comearam a brilhar. Eu e Annabeth 
nos afastamos to rpido que camos um por cima do 
outro. A boca do drago se abriu, como se testasse o 
maxilar. A cabea se virou e olhou para ns. Vapor 
emanou das orelhas e ele tentou se levantar.
Quando descobriu que no podia se mexer, o drago 
pareceu confuso. Ele ergueu a cabea e observou a 
sujeira. Finalmente, entendeu que estava enterrado. O 
pescoo se esticou uma vez, duas... e o centro da cratera 
estourou.
O drago se levantou desajeitadamente, sacudindo 
montes de lama do corpo como um cachorro e nos 
respingando dos ps  cabea. O autmato era to incrvel 
que nenhum de ns conseguia falar. Quer dizer, claro 
que ele precisava de uma passadinha num lava a jato e 
havia alguns fios soltos aqui e ali, mas o corpo do drago 
era maravilhoso, como um tanque ultramoderno com 
pernas. Suas laterais eram chapeadas com escamas de 
bronze e de ouro, com pedras preciosas incrustadas. As 
pernas eram do tamanho de trs caminhes e os ps 
tinham garras de ao. Ele no tinha asas  a maioria dos 
drages gregos no tem , mas a cauda era no mnimo 
to longa quanto a parte principal do corpo, que era do 
tamanho de um nibus escolar. O pescoo rangeu e 
estalou quando ele virou a cabea para o cu e soprou 
uma coluna de um fogo triunfante.
 Bom...  eu disse baixinho  ainda funciona.
Infelizmente, ele me ouviu. Aqueles olhos de rubi 
fixaram-se em mim e seu focinho estacou a cinco 
centmetros do meu rosto. Instintivamente, busquei 
minha espada.
        Drago, pare!  Silena gritou.
Eu estava impressionado por ela ainda ter voz. Falou com 
tanta deciso que o autmato desviou a ateno para ela. 
Silena engoliu em seco, nervosa.
        Ns o acordamos para defender o acampamento. 
Voc se lembra? Esse  o seu trabalho!
O drago inclinou a cabea como se pensasse. Imaginei 
que Silena tinha cerca de cinquenta por cento de chance 
de levar uma rajada de fogo. Eu considerava a hiptese de 
pular no pescoo da coisa para distra-la, quando Silena 
continuou:
        Charles Beckendorf, um filho de Hefesto, est com 
problemas. Os Myrmekos o levaram. Ele precisa de sua 
ajuda.
Ao som da palavra Hefesto, o pescoo do drago se 
ajeitou. Um tremor percorreu seu corpo de metal, 
jogando uma nova chuva de lama sobre ns.
O drago olhou em volta como se tentasse encontrar o 
inimigo.
        Ns precisamos mostrar a ele  disse Annabeth.  
Venha, drago! Por esse caminho at o filho de Hefesto! 
Siga-nos!
Assim, ela desembainhou sua espada e ns trs samos do 
buraco.
 Por Hefesto!  Annabeth gritou, o que foi uma idia 
legal. Avanamos pela floresta. Quando olhei para trs, o 
drago de bronze estava bem na nossa cola, os olhos 
vermelhos brilhavam e fumaa saa de suas narinas.
Ele era um bom incentivo para continuarmos correndo 
enquanto nos dirigamos para a Colina das Formigas.

Quando chegamos  clareira, o drago pareceu ter 
sentido o cheiro de Beckendorf. Ele nos ultrapassou e 
tivemos de sair do caminho para no sermos achatados. 
Ele batia contra as rvores, as articulaes rangiam e os 
ps deixavam crateras no solo.
Ele avanou direto para a Colina das Formigas. No incio, 
os Myrmekos no entenderam o que acontecia. O drago 
pisou em alguns deles, transformando-os em suco de 
inseto. Ento, a rede teleptica das formigas pareceu se 
ativar, como se dissesse: Drago gigante. Mau!
Todas as formigas na clareira se viraram ao mesmo tempo 
e rodearam o drago. Mais delas transbordaram da colina, 
centenas. O drago cuspiu fogo e uma fileira inteira de 
formigas bateu em retirada, em pnico. Quem diria que 
formigas eram inflamveis? Porm, mais delas 
continuaram vindo.
        Para dentro, agora!  Annabeth comandou.  
Enquanto elas esto concentradas no drago!
Silena liderou a movimentao  era a primeira vez que 
eu seguia uma filha de Afrodite numa batalha. Passamos 
pelas formigas correndo, mas elas nos ignoraram.
Por alguma razo, elas pareciam considerar o drago uma 
ameaa maior. Vai entender.
Mergulhamos no tnel mais prximo e eu quase vomitei 
com o fedor. Nada, nada mesmo, cheira to mal quanto 
uma toca gigante de formigas. Eu podia jurar que elas dei-
xavam a comida apodrecer antes de com-la. Algum 
precisava seriamente contar para elas que existem 
geladeiras.
Nossa jornada l dentro foi um borro de tneis escuros e 
ambientes mofados forrados com carapaas de formigas 
velhas e piscinas de gosma. Formigas agitavam-se, 
passando por ns a caminho da batalha. Mas apenas 
dvamos um passo para o lado e as deixvamos passar. O 
fraco brilho de bronze da minha espada nos deu luz 
enquanto seguamos para as profundezas do ninho.
        Vejam!  apontou Annabeth.
Espiei uma sala lateral e meu corao falhou uma batida. 
Pendurados no teto estavam enormes sacos gosmentos  
larvas de formiga, eu acho , mas no foi isso que 
chamou a minha ateno. O cho da gruta estava cheio 
de moedas de ouro, pedras preciosas e outros tesouros 
como capacetes, espadas, instrumentos musicais, jias. 
Brilhavam como se fossem objetos mgicos.
        Essa  s uma sala  Annabeth comentou.  
Provavelmente existem centenas de berrios aqui embai-
xo decorados com tesouros.
        Isso no  importante  Silena insistiu. Temos de 
encontrar Charlie.
Outra primeira vez: uma filha de Afrodite que no estava 
interessada em jias.
Seguimos em frente. Depois de mais uns seis metros, 
entramos numa caverna que cheirava to mal que meu 
nariz se fechou completamente. Os restos de refeies 
velhas estavam numa pilha to alta quanto dunas de areia: 
ossos, montes de carne estragada, at antigas refeies do 
acampamento. Acho que as formigas faziam incurses  
pilha de restos do refeitrio e roubavam nossas sobras. Na 
base de uma das pilhas, esforando-se para se manter 
ereto, via-se Beckendorf. Ele estava horrvel, em parte 
porque sua armadura camuflada agora era da cor do lixo.
        Charlie!  Silena correu para ele e tentou pux-lo.
        Graas aos deuses  disse ele.  Minhas... minhas 
pernas esto paralisadas!
        Isso vai passar  disse Annabeth.  Mas temos de tirar 
voc daqui. Percy, pegue-o pelo outro lado.
Eu e Silena suspendemos Beckendorf e ns quatro 
comeamos a voltar pelos tneis. Eu podia ouvir sons 
distantes de batalha: metal rangendo, rugidos de fogo, 
centenas de formigas mordendo e cuspindo.
        O que est acontecendo l fora?  Beckendorf quis 
saber. Seu corpo se enrijeceu.  O drago! Vocs no... 
o reativaram, n?
        Acho que sim  respondi.  Pareceu a nica opo.
        Mas vocs no podem simplesmente ligar um 
autmato! Vocs tm de calibrar o motor, processar um 
diagnstico... No h como prever o que ele vai fazer! 
Temos de ir at l!
Acabou que no precisamos ir a lugar nenhum, porque o 
drago veio at ns. Tentvamos lembrar qual tnel 
levava  sada quando a colina inteira explodiu, cobrindo-
nos de sujeira. De repente, estvamos olhando para cu 
aberto. O drago estava exatamente acima de ns. 
Golpeava para a frente e para trs e reduzia a Colina das 
Formigas a p enquanto tentava se livrar dos Myrmekos 
espalhados pelo corpo.
        Vamos!  gritei.
Cavamos para fora da sujeira e camos aos tropeos pela 
lateral da colina, puxando Beckendorf conosco.
Nosso amigo drago estava com problemas. Os 
Myrmekos mordiam as articulaes da sua armadura, 
cuspindo cido sobre ela. O drago pisoteava, estalava e 
soltava chamas, mas no resistiria muito mais. Fumaa saa 
de sua carcaa de bronze.
Para piorar, algumas formigas se voltaram para ns. Acho 
que no gostaram de termos roubado seu jantar. Eu 
retalhei uma e cortei sua cabea. Annabeth apunhalou 
outra bem entre as antenas. Assim que o bronze celestial 
penetrou a carapaa da formiga, ela se desintegrou 
completamente.
        Eu... eu acho que consigo andar agora  disse 
Beckendorf, e imediatamente caiu de cara no cho 
quando o soltamos.
        Charlie!
Silena o ajudou a se levantar e o puxou com dificuldade 
enquanto eu e Annabeth abramos caminho entre as 
formigas. De alguma maneira, conseguimos atingir a 
margem da clareira sem sermos mordidos ou cuspidos, 
embora um de meus tnis estivesse soltando fumaa por 
causa do cido.
Ainda na clareira, o drago tropeou. Uma grande nuvem 
de nvoa cida irritava sua couraa.
        No podemos deix-lo morrer!  disse Silena.
         muito perigoso  retrucou Beckendorf, triste.  Sua 
rede eltrica...
 Charlie  implorou Silena , ele salvou sua vida! Por 
favor, por mim.
Beckendorf hesitou. Seu rosto ainda estava muito 
vermelho por causa da saliva das formigas, e ele tinha a 
aparncia de quem ia desmaiar a qualquer momento mas 
se esforava para ficar de p.
        Preparem-se para correr!  comandou ele. Ento, 
observou a clareira e berrou:  DRAGO! Defesa 
emergencia1, beta-ATIVAR!
O drago se virou na direo do som da voz de 
Beckendorf. Ele parou de lutar contra as formigas, e seus 
olhos brilharam. O ar se encheu do cheiro de oznio, 
como antes de uma tempestade com raios e troves.
ZZZZZZAAAAAAPPP!
A pele do drago lanou descargas eltricas em ondas 
para cima e para baixo do seu corpo, conectando-o com 
as formigas. Algumas delas explodiram. Outras 
queimaram, ficaram pretas e contorceram as patas. Em 
poucos segundos, no havia mais formigas sobre o 
drago. As que ainda estavam vivas bateram em franca 
retirada, escapando de volta para a colina arruinada 
enquanto raios eltricos atingiam-nas no traseiro, 
apressando-as.
O drago urrou triunfante. Ento, ele virou os olhos 
brilhantes para ns.
        Agora  disse Beckendorf , ns corremos.


Dessa vez no gritamos "Por Hefesto!". Gritamos 
"Socoooooorro!".
O drago veio nos golpear, vomitando fogo e lanando 
raios sobre as nossas cabeas como se estivesse se 
divertindo muito.
        Como se pra essa coisa?  gritou Annabeth. 
Beckendorf, cujas pernas agora estavam boas (nada como 
ser perseguido por um monstro enorme para o corpo 
ficar em ordem), sacudiu a cabea e arfou.
        Vocs no deveriam t-lo ligado! Ele  instvel! 
Depois de alguns anos, autmatos ficam descontrolados!
        Bom saber  gritei.  Mas como se desliga? 
Beckendorf olhou em volta freneticamente.
        L!
Uma enorme formao rochosa estava  nossa frente, 
quase to alta quanto as rvores. A floresta era cheia de 
pedras estranhas, mas eu nunca tinha visto uma assim. 
Tinha o formato de uma rampa de skate gigante, 
inclinada em um dos lados e com uma descida ngreme 
no outro.
        Corram acompanhando a base do despenhadeiro  
disse Beckendorf.  Distraiam o drago. Mantenham-no 
ocupado!
        O que voc vai fazer?  quis saber Silena.
        Voc ver. Vo!
Beckendorf sumiu atrs de uma rvore enquanto eu virei 
e gritei para o drago.
        Ei, boca de jacar! Seu bafo tem cheiro de gasolina! O 
drago soltou fumaa preta pelas narinas. Ele avanou 
para cima de mim, sacudindo o cho.
        Vamos!  Annabeth agarrou minha mo. Corremos 
para trs do despenhadeiro. O drago nos seguiu.  
Precisamos segur-lo aqui  disse ela. Ns trs 
preparamos nossas espadas.
O drago nos alcanou e cambaleou at parar. Ele 
inclinou a cabea como se no acreditasse que seramos 
to burros a ponto de lutar. Agora que nos alcanara, 
havia tantas maneiras diferentes de nos matar que ele 
provavelmente no conseguiria decidir.
Ns nos separamos quando a primeira rajada de fogo 
transformou o pedao de cho prximo a ns num 
buraco de cinzas.
Ento, vi Beckendorf sobre ns, no alto do 
despenhadeiro, e entendi o que ele tentava fazer. Ele 
precisava de um alvo limpo. Eu tinha de prender a 
ateno do drago.
        I!  Avancei. Enfiei Contracorrente na pata do 
drago e cortei uma garra.
Sua cabea rangeu enquanto olhava para baixo, para 
mim. Ele parecia mais confuso que enraivecido, tipo: Por 
que voc arrancou meu dedo?
Ento, ele abriu a boca, revelando uma centena de dentes 
pontiagudos.
        Percy!  Annabeth me advertiu. 
Mantive minha posio.
        S mais um segundo...
        Percy!
E exatamente quando o drago ia me atacar, Beckendorf 
se lanou das rochas e aterrissou no pescoo do 
autmato.
O drago empinou-se e soltou chamas, tentando sacudir 
Beckendorf, mas ele se segurou como um caubi ao 
mesmo tempo em que o monstro dava cabeadas a esmo. 
Eu observava, fascinado, enquanto Beckendorf abria  
fora um painel na base da cabea do drago e arrancava 
um fio.
Instantaneamente, o drago congelou. Seus olhos ficaram 
opacos. De repente, ele era s uma esttua de bronze, 
mostrando os dentes para o cu.
Beckendorf deslizou pelo pescoo do drago. Ele 
desabou ao chegar  cauda, exausto e respirando com 
dificuldade.
        Charlie!  Silena correu at ele e lhe deu um longo 
beijo no pescoo. Voc conseguiu!
Annabeth veio at mim e apertou meu ombro de leve.
        Ei, Cabea de Alga, voc est bem?
        Sim... eu acho.
Eu pensava em quo perto cheguei de virar um semideus 
modo na boca do drago,
        Voc foi timo.
O sorriso de Annabeth era muito melhor do que o 
daquele drago idiota.
        Voc tambm - disse eu, trmulo.  Ento... o que 
fazemos com o autmato?
Beckendorf secou a testa. Silena ainda cuidava dos cortes 
e machucados dele, que parecia bem distrado com toda 
aquela ateno.
        Ns... ... eu no sei  respondeu ele.  Talvez 
possamos consert-lo, faz-lo proteger o acampamento, 
mas isso poderia levar meses.
- Vale tentar  comentei.
Imaginei termos aquele drago de bronze na nossa luta 
contra Cronos, o Senhor dos Tits. Seus monstros 
pensariam duas vezes antes de atacar o acampamento se 
tivessem de encarar aquela coisa. Por outro lado, se o dra-
go decidisse ser um brbaro furioso de novo e atacasse 
os campistas... isso seria muito pior.
        Voc viu todo aquele tesouro na Colina das Formigas? 
 Beckendorf perguntou.  As armas mgicas? A 
armadura? Aquelas coisas realmente poderiam nos 
ajudar.
        E os braceletes  Silena comentou.  E todos os 
colares.
Estremeci s de lembrar o cheiro daqueles tneis.
        Acho que essa  uma aventura para depois. Seria 
necessrio um exrcito de semideuses somente para 
chegar perto daquele tesouro.
        Talvez  ponderou Beckendorf.  Mas que tesouro...
Silena estudou o drago paralisado.
        Charlie, essa foi a coisa mais corajosa que eu j vi... 
voc pulando naquele drago.
Beckendorf engoliu em seco.
        Hum... . Ento... voc quer ir aos fogos comigo? 
O rosto de Silena se animou.
        Claro, seu tolinho! Pensei que voc nunca fosse me 
convidar!
De repente, Beckendorf pareceu estar muito melhor.
        Bom, vamos voltar, ento! Aposto que a captura da 
bandeira j acabou.

Tive de ir descalo, porque o cido corroeu 
completamente meu sapato. Quando o joguei fora, 
percebi que a gosma tinha ensopado minha meia e 
deixado meu p em carne viva. Eu me apoiei em 
Annabeth e ela me ajudou a seguir pela floresta 
coxeando.
Beckendorf e Silena caminhavam  nossa frente, de mos 
dadas, e ns os deixamos  vontade.
Observando os dois, com meu brao em volta de 
Annabeth para me apoiar, me senti bastante 
desconfortvel. Silenciosamente, amaldioei Beckendorf 
por ele ser to corajoso, e no estou me referindo a 
enfrentar o drago. Depois de trs anos, ele finalmente 
encontrou coragem para convidar Silena Beauregard para 
sair. Isso no era justo.
        Sabe  Annabeth comeou a dizer enquanto nos 
esforvamos para andar , essa no foi a coisa mais 
corajosa que eu j vi.
Pisquei. Ser que ela lia meus pensamentos?
        Hum... o que voc quer dizer?
Annabeth segurou meu pulso quando passamos 
desajeitados por um crrego raso.
        Voc encarou o drago para que Beckendorf tivesse a 
chance de pular... isso foi corajoso.
        Ou muito idiota.
        Percy, voc  um cara corajoso  afirmou ela.  
Apenas aceite o elogio.  to difcil assim?
Nossos olhares se encontraram. Nossos rostos estavam, 
tipo, a cinco centmetros de distncia um do outro. Senti 
o peito meio esquisito, como se meu corao tentasse 
fazer polichinelos.
        Ento...  comecei , acho que Silena e Charlie vo 
aos fogos juntos.
        Acho que sim  Annabeth concordou.
        ...  continuei , hum, sobre isso...
No sei o que eu teria dito, mas, justo naquele instante, 
trs irmos de Annabeth do chal de Atena brotaram dos 
arbustos com as espadas desembainhadas. Quando eles 
nos viram, comearam a rir.
        Annabeth!  um deles a chamou.  Bom trabalho! 
Vamos prender esses dois.
Eu o encarei.
        O jogo no acabou?
O campista de Atena gargalhou.
        Ainda no... mas acabar logo, logo. Agora que 
capturamos voc,
        Cara, o que  isso  Beckendorf protestou.  Ns nos 
desviamos do jogo. Havia um drago, e toda a Colina das 
Formigas nos atacou.
        A-h.  Outro garoto de Atena se manifestou, 
claramente no impressionado.  timo trabalho 
distraindo os dois, Annabeth. Funcionou perfeitamente. 
Voc quer que ns os levemos a partir daqui?
Annabeth se afastou de mim. Eu jurava que ia nos dar 
passe livre para a fronteira, mas ela desembainhou a 
espada e a apontou para mim com um sorriso.
        No  disse ela.  Eu e Silena podemos fazer isso. 
Vamos, prisioneiros. Mexam-se.
Eu a encarei, pasmo.
        Voc planejou isso? Voc planejou essa coisa toda s 
para nos manter fora do jogo?
        Percy, srio, como eu poderia ter planejado isso?
O        drago, as formigas... voc acha que eu poderia ter 
previsto tudo aquilo?
Pode no parecer, mas essa era Annabeth. Era impossvel 
conhec-la totalmente. Ento, ela trocou olhares com 
Silena, e eu podia jurar que elas tentavam no rir.
Voc... sua...  comecei a dizer, mas no consegui 
pensar num nome forte o bastante para xing-la.
Protestei por todo o caminho at a priso, assim como 
Beckendorf. Era muito injusto sermos tratados como 
prisioneiros depois de tudo por que passamos.
Mas Annabeth apenas sorriu e nos prendeu. Enquanto se 
dirigia de volta para a linha de frente, ela se virou e 
piscou.
        Vejo voc nos fogos?
Ela nem esperou pela minha resposta antes de se lanar 
para a floresta.
Olhei para Beckendorf.
        Ela acabou de... me convidar para sair? 
Ele deu de ombros, completamente enojado.
 Quem vai entender as garotas? Prefiro encarar um 
drago descontrolado.
Ento, ns nos sentamos e esperamos as garotas 
ganharem o jogo.


IRMOS STOLL
Entrevista com CONNOR e TRAVIS 
STOLL, 
Filhos de Hermes


Qual foi a melhor pea que vocs j pregaram em 
outro campista?

Connor: A manga dourada!

Travis: Ah, cara, essa foi sensacional.

Connor: Bom, ns pegamos uma manga e a 
pintamos com tinta spray dourada, certo? 
Escrevemos "Para a mais gostosa" nela e a deixamos 
no chal de Afrodite enquanto as garotas estavam 
na aula de arco e flecha. Quando voltaram, as 
garotas comearam a brigar pela manga, tentando 
descobrir qual delas era a mais gostosa. Foi muito 
engraado.

Travis: Sapatos Gucci voaram pelas janelas.  As 
filhas de Afrodite rasgavam as roupas umas das 
outras e atiravam batons e jias. Eram como um 
rebanho fantico de bonecas Bratz selvagens.

Connor: Ento, elas descobriram o que tnhamos 
feito e vieram atrs de ns.

Travis: Aquilo no foi legal. Eu no sabia que elas 
faziam maquiagem permanente. Fiquei parecendo 
um palhao por um ms.

Connor: . Elas jogaram uma maldio em mim 
que, no importava o que eu vestisse, todas as 
minhas roupas ficavam dois tamanhos menores e eu 
me senti um idiota.

Travis: Voc  um idiota.

Quem vocs mais gostariam de ter em sua equipe 
para a captura da bandeira?

Travis: Meu irmo, porque preciso ficar de olho 
nele.

Connor: Meu irmo, porque no confio nele. Alm 
dele? Provavelmente o chal de Ares.

Travis: . Eles so fortes e fceis de manipular. A 
combinao perfeita.

Qual  a melhor parte de estar no chal de 
Hermes?

Connor: Voc nunca est sozinho. Srio, novas 
crianas esto sempre chegando. Ento voc 
sempre tem com quem conversar.

Travis: Ou zoar.

Connor: Ou roubar. Uma grande famlia feliz.


 
Entrevista com CLARISSE LA RUE,
Filha de Ares


Com quem voc mais gostaria de arrumar uma 
briga no Acampamento Meio-Sangue?

Clarisse: Com qualquer um que atravesse meu 
caminho, otrio. Ah, voc quer dizer 
especificamente? Muitas opes. Tem esse garoto 
novo no chal de Apolo, Michael Yew. Eu ia 
adorar quebrar seu arco na cabea dele. Ele pensa 
que o chal de Apolo  muito melhor que o de 
Ares s porque eles podem usar armas de longo 
alcance e ficar longe da batalha como covardes. 
Sou mais uma lana e um escudo. Algum dia, pode 
escrever, transformarei em p Michael Yew e todo 
o seu chal de bananas.

Com exceo do seu pai, quem voc acha que  o 
deus ou a deusa mais corajoso ou corajosa do 
Conselho Olimpiano?

Clarisse: Bom, ningum chega perto de Ares, mas 
acho que o Senhor Zeus  bastante corajoso. Quer 
dizer, ele deu conta de Tifo e lutou contra Cronos. 
Claro que  fcil ser corajoso quando se tem um ar-
senal de raios superpoderosos. Sem querer 
ofender.

Voc j se vingou de Percy por ele t-la ensopado 
com gua de privada?

Clarisse: Ah, aquele intil anda se exibindo de 
novo, n? No acredite nele. Ele exagerou a coisa 
toda. Acredite, a vingana se aproxima. Um dia 
desses, ele vai lamentar. Por que espero? Apenas 
estratgia. Aguardo os prximos acontecimentos e 
espero o momento certo para atacar. No estou 
assustada, o.k.? E sou capaz de quebrar os dentes 
de quem disser o contrrio.


 
Entrevista com ANNABETH CHASE,
Filha de Atena


Se voc pudesse desenhar uma nova estrutura para 
o Acampamento Meio-Sangue, qual seria?

Annabeth: Fico feliz que voc tenha perguntado. 
Precisamos seriamente de um templo. Aqui 
estamos ns, filhos dos deuses gregos, e no temos 
nem um monumento a nossos pais. Eu o colocaria 
no monte logo ao sul da Colina Meio-Sangue, e eu 
o projetaria de tal forma que todas as manhs o sol 
nascente brilhasse pelas janelas e desenhasse 
smbolos dos deuses no cho: num dia uma guia, 
no outro uma coruja. Ele teria esttuas para todos 
os deuses, claro, e braseiros de bronze para 
queimar oferendas. Eu o faria com acstica perfei-
ta, como o Carnegie Hall, para que tivssemos 
concertos de lira e flauta l. Eu poderia continuar 
falando, mas acho que voc j entendeu. Quron 
diz que ns temos de vender quatro milhes de 
caminhes de morangos para pagar um projeto 
como esse, mas acho que valeria a pena.

Com exceo de sua me, quem voc acha que  o 
deus ou a deusa mais sbio ou sbia do Conselho 
Olimpiano?

Annabeth:  Ai,  deixe-me pensar...   hum.  A 
questo  que os olimpianos no so conhecidos 
exatamente por sua sabedoria, e digo isso com o 
mximo de respeito possvel. Zeus  sbio a seu 
modo. Quer dizer, ele mantm a famlia unida por 
quatro mil anos, e isso no  fcil. Hermes  
esperto. Ele at fez Apolo de bobo uma vez, ao 
roubar o rebanho dele, e Apolo no  nenhum 
negligente. Sempre admirei rtemis tambm. Ela 
no desonra suas crenas. Ela apenas cuida dos 
prprios assuntos e no perde muito tempo 
discutindo com os outros deuses do conselho. Ela 
ainda passa mais tempo no mundo mortal que a 
maioria dos deuses. Ento, entende        o que 
acontece. Mas no compreende os garotos. Acho 
que ningum  perfeito.

De todos os seus amigos do Acampamento Meio-
Sangue, quem voc mais gosta de ter a seu lado 
numa batalha?

Annabeth: Ah, Percy. Sem dvida. Quer dizer, 
claro que ele pode ser chato, mas  confivel. Ele  
corajoso e  um bom lutador. Geralmente, desde 
que eu diga o que fazer, ele vence uma luta.
Sabemos que voc chama Percy de "Cabea de 
Alga" de vez em quando. Qual  a caracterstica 
mais irritante dele?

Annabeth: Bom, eu no o chamo assim porque ele 
 brilhante, chamo? Quer dizer, ele no  burro. 
Na verdade ele  bem inteligente, mas ele age 
como burro s vezes. Fico pensando se ele no age 
desse jeito s para me chatear. O cara tem muitas 
coisas a seu favor. Ele  corajoso. Tem senso de 
humor.  bonito, mas no ouse contar isso a ele.
Onde eu estava? Ah, sim, ele tem muitas coisas a 
seu favor, mas ele  to... lento. Essa  a palavra. 
Quer dizer, ele no enxerga coisas realmente 
bvias; por exemplo, o modo como as pessoas se 
sentem, mesmo quando voc d pistas a ele e  
totalmente explcito. O qu? No, no me refiro a 
algum ou algo em particular! S estou dando um 
depoimento geral. Por que todo mundo sempre 
pensa... Argh! Deixa pra l!


 
Entrevista com GROVER 
UNDERWOOD, Stiro


Que msica voc mais gosta de tocar na flauta?
Grover: Ah, ... bem, isso  um pouco embaraoso. 
Recebi um pedido uma vez de um rato almiscarado 
que queria ouvir "Muskrat love", sobre o amor de 
ratos almiscarados. Bom... aprendi a msica, e 
tenho de admitir que gostei de toc-la. 
Honestamente, ela no  mais s para ratos 
almiscarados! Ela  uma histria de amor muito 
doce. Fico com os olhos cheios d'gua quando toco 
essa msica. Percy tambm, mas acho que  porque 
ele est  rindo de mim.

Qual desses dois voc preferiria encontrar em um 
beco escuro: um ciclope ou o sr. D furioso?

Grover: B! Que tipo de pergunta foi essa? ... 
bem... Eu preferiria encontrar o sr. D, obviamente, 
porque ele  to... , legal. Sim, carinhoso e 
generoso com todos ns,  stiros.  Todos ns o 
amamos. E eu no digo isso s porque ele sempre 
ouve e me faria em pedaos se eu falasse outra 
coisa.

Na sua opinio, na natureza, qual  o lugar mais 
bonito nos Estados Unidos?

Grover:  incrvel que ainda haja tantos lugares 
legais, mas gosto de Lake Placid, no norte do 
estado de Nova York. Muito bonito, especialmente 
num dia de inverno! E as ninfas do bosque de l... 
uau! Ah, espere, voc pode cortar essa parte? Ju-
niper vai me matar.

Latas de alumnio so realmente to gostosas assim?

Grover: Minha velha vov cabra costumava dizer: 
"Duas latas por dia - para no ter monstros,  a 
garantia." As latas tm vrios minerais, so muito 
nutritivas e sua textura  maravilhosa. Verdade, 
como no gostar? No tenho culpa se os dentes 
humanos no foram feitos para o trabalho pesado.

Entrevista com PERCY JACKSON,
Filho de Poseidon

Do que voc gosta mais nos veres no 
Acampamento Meio-Sangue?

Percy: De ver meus amigos, com certeza.  muito 
legal voltar ao acampamento depois de um ano na 
escola.  como voltar para casa. No primeiro dia do 
vero, passeio pelos chals e Connor e Travis 
furtam coisas da loja do acampamento, Silena 
discute com Annabeth, tentando mudar o seu 
estilo, e Clarisse ainda enfia as cabeas das crianas 
novas nas privadas.  bom que algumas coisas 
nunca mudem.

Voc frequentou muitas escolas diferentes. Qual  
a parte mais difcil de ser o aluno novo?

Percy: Fazer sua reputao. Quer dizer, todo 
mundo quer se encaixar num grupo, certo? Mesmo 
que voc seja um nerd, um pit-boy ou o que for. 
Voc precisa deixar claro desde o princpio que 
no  algum que eles possam importunar, mas 
voc tambm no pode ser um mala quanto a isso. 
Mas provavelmente no sou a melhor pessoa para 
dar conselhos. No consigo passar um ano sem ser 
expulso ou destruir alguma coisa.

Se voc pudesse trocar Contracorrente pelo item 
mgico de algum, o de quem voc escolheria?

Percy: Essa  difcil, porque eu realmente me 
acostumei a Contracorrente. No consigo me 
imaginar sem aquela espada. Acho que seria legal 
ter um conjunto de armadura que se transformasse 
em roupas comuns. Vestir armadura  muito ruim. 
 pesada,  quente. E no deixa voc exatamente 
na moda, entende? Ento, ter roupas que se 
metamorfoseassem em armadura seria realmente 
til. Mas eu ainda no estou muito certo de que 
trocaria minha espada por isso.

Voc quase foi pego muitas vezes, mas qual foi o 
momento mais assustador?

Percy: Vou ter de responder que foi minha 
primeira luta com o Minotauro, no alto da Colina 
Meio-Sangue, porque eu no sabia o que diabos 
estava acontecendo. Eu nem sabia que era um 
semideus quela altura. Pensei que tinha perdido 
minha me para sempre, e eu estava preso numa 
colina debaixo de uma tempestade lutando contra 
esse sujeito meio touro enquanto Grover, 
desmaiado, gemia: "Comida!". Foi aterrorizante, 
cara.

Algum conselho para crianas que suspeitam serem 
semideuses tambm?

Percy: Rezem para estarem errados. Srio, pode 
parecer divertido ler sobre isso, mas no  uma boa 
coisa. Se voc pensa mesmo que  um semideus, 
encontre um stiro depressa. Voc normalmente 
pode ach-los em qualquer escola. Eles riem de um 
jeito esquisito e comem qualquer coisa. Eles podem 
ter um andar engraado porque tentam esconder 
seus cascos dentro de ps falsos. Encontre o stiro 
de sua escola e pea ajuda. Voc precisa chegar ao 
Acampamento Meio-Sangue logo. Mas, de novo, 
voc no quer ser um semideus. No tente fazer 
isso em casa.
OS ARQUIVOS DO SEMIDEUS
MAPA DO ACAMPAMENTO MEIO-
SANGUE

 
 






 
 

PERCY JACKSON E A ESPADA DE 
HADES

Passar o Natal no Mundo Inferior NO estava nos meus 
planos.
Se soubesse o que estava por vir, teria inventado uma 
doena qualquer. Poderia ter evitado um exrcito de 
demnios, uma luta com um tit ou uma cilada que quase 
lanou a mim e aos meus amigos na escurido eterna.
Mas no, eu tinha de fazer minha prova idiota de ingls. 
Ento, l estava eu, no ltimo dia do semestre de inverno 
na Goode High School, sentado no auditrio com todos 
os outros calouros e tentando terminar a minha redao 
eu-no-li-o-livro-mas-estou-fingindo-que-li sobre Um 
conto de duas cidades, quando a sra. O'Leary surgiu no 
palco, latindo loucamente.
A sra. O'Leary  meu co infernal de estimao. Ela  um 
monstro preto e peludo do tamanho de uma 
caminhonete Hummer com caninos afiados, garras 
cortantes como ao e olhos vermelhos brilhantes. Ela  
realmente doce, mas em geral fica no Acampamento 
Meio-Sangue, o lugar para treinamento de semideuses. 
Eu estava um tanto surpreso em v-la no palco andando 
por entre as rvores de Natal, os duendes do Papai Noel e 
o restante do cenrio da pea de fim de ano.
Todo mundo levantou os olhos para ver. Eu estava certo 
de que as outras crianas entrariam em pnico e 
correriam para a sada, mas apenas comearam a 
cochichar e a rir. Algumas garotas disseram: "Awrran, 
fofinha!"
Nosso professor de ingls, o dr. Boring (no estou 
brincando, o significado  "chato" e esse  o nome dele), 
ajeitou os culos e franziu o cenho.
Tudo bem  comeou ele , de quem  o poodle?
Suspirei aliviado, agradecendo aos deuses pela Nvoa  o 
vu mgico que impede os humanos de verem as coisas 
como realmente so. Eu j a tinha visto distorcer a 
realidade muitas vezes, mas a sra. O'Leary como um 
poodle? Essa foi impressionante.
        Hum,  meu, senhor  respondi em voz alta.  
Desculpe! Ela deve ter me seguido.
Algum atrs de mim comeou a assobiar "Mary tinha um 
carneirinho". Mais crianas aderiram ao coro.
        Chega!  interrompeu o dr. Boring, rispidamente.  
Percy Jackson, essa  uma prova final. No posso ter 
poodles...
- AU!
O latido da sra. O'Leary sacudiu o auditrio. Ela abanou 
o rabo, derrubando mais alguns duendes. Ento, inclinou-
se sobre as patas dianteiras e me encarou como se 
quisesse que eu a seguisse.
        Vou tir-la daqui, dr. Boring  prometi.  Eu j 
terminei mesmo.
Fechei meu caderno de respostas e corri para o palco. A 
sra. O'Leary se dirigiu para a sada e eu a segui enquanto 
as outras crianas ainda riam e gritavam pelas minhas 
costas: "At mais, menino do poodle!"
A sra. O'Leary correu pela rua 81 Leste em direo ao 
rio.
        Devagar!  gritei.  Aonde voc est indo?
Recebi alguns olhares estranhos dos pedestres, mas 
estvamos em Nova York, e, afinal, um garoto 
perseguindo um poodle provavelmente no era a coisa 
mais esquisita que eles j tinham visto.
A sra. O'Leary se manteve bem  minha frente, e se 
virava para latir de vez em quando como se dissesse: 
Mexa-se, lesma! Ela correu trs quadras para o norte, 
direto para dentro do parque Carl Schurz. Quando eu a 
alcancei, ela saltou uma cerca de ferro e desapareceu 
numa enorme parede de arbustos podados cobertos de 
neve.
        Ei, vamos l  reclamei.
Eu no havia tido a chance de pegar meu casaco na 
escola. J estava morrendo de frio, mas escalei a cerca e 
mergulhei na moita congelada.
Do outro lado havia uma clareira: uns dois quilmetros 
quadrados de grama congelada circundada por rvores 
sem folhas. A sra. O'Leary cheirava o entorno, 
balanando a cauda loucamente. No percebi nada fora 
do comum. A minha frente, o Rio East, cor de ao, flua 
preguiosamente. Nuvens de fumaa branca saam dos 
telhados no Queens. Atrs de mim, o Upper East Side se 
destacava, frio e silencioso.
Eu no tinha certeza do porqu, mas minha nuca 
comeou a formigar. Peguei minha caneta esferogrfica e 
a destampei. Imediatamente, ela aumentou de tamanho 
at virar minha espada de bronze, Contracorrente. Sua 
lmina reluzia fracamente na luz do inverno.
A sra. O'Leary levantou a cabea. Suas narinas tremeram.
 O que foi, garota?  sussurrei.
Os arbustos farfalharam e um cervo dourado surgiu entre 
eles. Quando eu digo dourado, no quero dizer amarelo. 
Aquela coisa tinha pelo metlico e chifres que pareciam 
de genunos catorze quilates. Ele emitia uma aura de luz 
dourada, quase brilhante demais para se olhar direta-
mente. Era provavelmente a coisa mais bonita que eu j 
tinha visto.
A sra. O'Leary lambeu os beios como se estivesse 
pensando hambrguer de cervo! Ento, os arbustos 
farfalharam de novo e uma figura encapuzada saltou para 
a clareira, uma flecha engatada em seu arco.
Levantei minha espada. A garota mirou em mim  depois 
parou.
        Percy?
Ela jogou para trs o capuz prateado da sua capa. Seus 
cabelos negros estavam mais longos do que eu lembrava, 
mas eu conhecia aqueles brilhantes olhos azuis e a fita 
prateada que a marcava como a primeira-tenente de 
rtemis.
Thalia!  exclamei.  O que est fazendo aqui?
        Seguindo o cervo dourado  ela respondeu, como se 
isso fosse bvio.   o animal sagrado de rtemis. 
Entendi que era algum tipo de sinal. E, hum... - ela 
indicou a sra. O'Leary com a cabea, nervosa. Voc 
quer me dizer o que aquilo est fazendo aqui?
        Aquilo  meu bicho de estimao. Sra. O'Leary, no! 
A sra. O'Leary estava cheirando o cervo, invadindo 
completamente seu espao. O cervo tocou o co infernal 
no nariz. Logo em seguida, os dois estavam brincando de 
um estranho jogo de pega-pega pela clareira.
        Percy  Thalia franziu o cenho.  Isso no pode ser 
uma coincidncia. Voc e eu no mesmo lugar e ao 
mesmo tempo?
Ela estava certa. Semideuses no viviam coincidncias. 
Thalia era uma boa amiga, mas eu no a via fazia um ano, 
e agora, de repente, ali estvamos ns.
        Algum deus est aprontando com a gente  sugeri.
        Provavelmente.
        Bom ver voc, mesmo assim. 
Ela sorriu de m vontade.
        T. Se sairmos dessa inteiros, pago um cheeseburger 
para voc. Como est Annabeth?
Antes que eu pudesse responder, uma nuvem passou 
pelo sol. O cervo dourado tremeluziu e desapareceu, dei-
xando a sra. O'Leary latindo para um monte de folhas.
Preparei minha espada. Thalia armou seu arco. 
Instintivamente nos posicionamos de costas um para o 
outro. Um caminho de escurido passou pela clareira e 
um garoto caiu dele como se tivesse sido cuspido, 
pousando na grama a nossos ps.
        Ai  resmungou.
Ele bateu a poeira de sua jaqueta de aviador. Tinha mais 
ou menos doze anos, cabelos escuros, usava jeans, 
camiseta preta e um anel de caveira prateado na mo 
direita. Uma espada pendia a seu lado.
        Nico?  chamei.
Os olhos de Thalia se arregalaram.
        O irmo mais novo de Bianca?
Nico nos olhou de cara feia. Duvido de que ele gostasse 
de ser anunciado como o irmo mais novo de Bianca. 
Sua irm, uma Caadora de rtemis, tinha morrido havia 
alguns anos, e esse ainda era um assunto delicado para 
ele.
        Por que vocs me trouxeram para c?  reclamou.  
Num minuto estou num cemitrio em Nova Orleans. No 
minuto seguinte... isso  Nova York? O que em nome de 
Hades eu estou fazendo em Nova York?
        Ns no o trouxemos para c  jurei.  Ns fomos...  
um calafrio desceu pelas minhas costas.  Fomos trazidos 
juntos. Os trs.
        Do que voc est falando?  Nico quis saber.
        Os filhos dos Trs Grandes  disse eu.  Zeus, 
Poseidon e Hades.
Thalia respirou fundo.
        A profecia. Vocs no acham que Cronos...
Ela no concluiu o pensamento. Todos conhecamos a 
grande profecia: uma guerra estava a caminho, entre os ti-
ts e os deuses, e o primeiro filho de um dos trs maiores 
deuses a completar dezesseis anos tomaria uma deciso 
que salvaria ou destruiria o mundo. Isso se referia a um 
de ns. Ao longo dos ltimos anos, o Senhor dos Tits, 
Cronos, tentou manipular cada um de ns separadamen-
te. Agora... ser que ele estava tramando alguma coisa ao 
trazer os trs juntos?
O cho retumbou. Nico empunhou sua espada: uma 
lmina negra de ferro estgio. A sra. O'Leary saltou para 
trs e latiu assustada.
Percebi tarde demais que ela estava tentando me alertar.
O cho se abriu sob Thalia, Nico e eu, e ns camos na 
escurido.

Eu esperava continuar caindo para sempre, ou talvez 
acabar achatado como uma panqueca de semideus 
quando atingssemos o fundo. Mas o que vi a seguir foi 
Thalia, Nico e eu de p num jardim, todos os trs ainda 
gritando de terror, o que fez eu me sentir bastante idiota.
        O que... onde estamos?  Thalia perguntou.
O jardim era escuro. Fileiras de flores prateadas 
brilhavam fracamente, refletindo enormes pedras 
preciosas que delineavam os canteiros: diamantes, safiras 
e rubis do tamanho de bolas de futebol americano. 
Arvores arqueavam-se sobre ns, as copas cobertas de 
flores de laranjeira e frutas docemente perfumadas. O ar 
era frio e mido, mas no como no inverno de Nova 
York. Parecia mais uma caverna.
        J estive aqui antes  eu disse. Nico arrancou uma 
rom de uma rvore.
        O jardim da minha madrasta, Persfone.  Ele fez 
uma cara azeda e largou a fruta.  No comam nada.


Ele no precisava me avisar duas vezes. Uma s prova da 
comida do Mundo Inferior e ns nunca seramos capazes 
de ir embora.
        Olhem para cima  Thalia alertou.
Eu me virei e vi Thalia mirando sua flecha em uma 
mulher alta de vestido branco.
A princpio, pensei que a mulher fosse um fantasma. O 
vestido esvoaava em torno dela como fumaa. Os longos 
cabelos escuros flutuavam e ondulavam como se no 
pesassem nada. O rosto era bonito, porm mortalmente 
plido.
Ento, percebi que o vestido no era branco. Tinha todas 
as cores misturadas  flores vermelhas, azuis e amarelas 
brotavam no tecido , mas era estranhamente desbotado. 
Seus olhos eram do mesmo jeito, multicoloridos, mas 
esmaecidos, como se o Mundo Inferior houvesse sugado 
sua vontade de viver. Tive a impresso de que no mundo 
acima de ns ela seria bonita, at brilhante.
        Sou Persfone  disse ela. Sua voz era fina e fraca.  
Sejam bem-vindos, semideuses.
Nico esmagou uma rom embaixo de sua bota.
        Bem-vindo? Depois da ltima vez, voc tem coragem 
de me dar boas-vindas?
Eu me mexi, inquieto, porque algum que fale desse jeito 
com um deus pode ser transformado em tufos de poeira.
        Hum, Nico...
        Est tudo bem  disse Persfone friamente.  Tivemos 
uma pequena desavena familiar.
        Desavena familiar?  gritou Nico.  Voc me 
transformou num dente-de-leo!
Persfone ignorou o enteado.
        Como eu estava dizendo, semideuses, bem-vindos ao 
meu jardim.
Thalia baixou o arco.
        Voc enviou o cervo dourado?
        E o co infernal  admitiu a deusa.  E a sombra que 
coletou Nico. Era necessrio traz-los juntos.
        Por qu?  perguntei.
Persfone me observou, e senti como se frias florezinhas 
crescessem em meu estmago.
        O Senhor Hades tem um problema  disse ela.  E se 
sabem o que  bom para vocs, iro ajud-lo.

Sentamos em um terrao escuro com vista panormica 
para o jardim. As criadas de Persfone trouxeram comida 
e bebida, que nenhum de ns tocou. Elas seriam bonitas 
no fosse o fato de estarem mortas. Estavam vestidas de 
amarelo, e usavam coroas de margaridas e plantas 
venenosas na cabea. Os olhos eram vazios e as vozes 
sombrias como o bater das asas de morcegos.


Persfone sentou-se em um trono prateado e nos 
estudou.
        Se estivssemos na primavera, poderia receb-los 
apropriadamente no mundo l em cima. Pena que no 
inverno isso seja o melhor que eu posso fazer.
Ela soou amarga. Depois de tantos milnios, acho que 
ainda se ressentia de viver com Hades metade do ano. 
Parecia sem cor e deslocada, como a fotografia de uma 
antiga primavera.
Ela se virou na minha direo como se lesse meus 
pensamentos.
        Hades  meu marido e mestre, meu jovem. Eu faria 
qualquer coisa por ele. Mas neste caso preciso da ajuda 
de vocs, e rpido. Tem a ver com a espada do Senhor 
Hades.
Nico desdenhou.
        Meu pai no tem uma espada. Ele usa um exrcito e 
seu elmo das trevas.
        Ele no tinha uma espada  corrigiu Persfone. Thalia 
se levantou.
        Ele est forjando um novo smbolo de poder? Sem a 
permisso de Zeus?
A deusa da primavera apontou. Em cima da mesa, uma 
imagem tremulou e ganhou vida: ferreiros esquelticos 
trabalhavam sobre uma forja de chamas negras, usando 
machados decorados com caveiras de metal para moldar 
uma extenso de ferro em uma lmina.
        A guerra contra os tits est muito prxima  disse 
Persfone.  Meu senhor, Hades, tem de estar 
preparado.
        Mas Zeus e Poseidon nunca permitiriam que Hades 
forjasse uma nova arma! Thalia protestou.  Isso 
desequilibraria o acordo de diviso de poderes entre eles.
Persfone balanou a cabea.
Voc quer dizer que faria de Hades um igual? Acredite, 
filha de Zeus, o Senhor dos Mortos no tem planos 
contra seus irmos. Ele sabia que nunca entenderiam, e 
foi por isso que forjou a arma em segredo.
A imagem sobre a mesa tremeu. Um ferreiro zumbi 
ergueu a lmina, ainda ardendo com o calor. Alguma 
coisa estranha estava presa na base  no era uma pedra 
preciosa. Parecia mais...
        Aquilo  uma chave?  perguntei. 
Nico emitiu um som engasgado.
        As chaves de Hades?
        Espere  interrompeu Thalia , o que so as chaves 
de Hades?
Nico parecia mais plido que sua madrasta.
        Hades tem um conjunto de chaves de ouro que 
podem trancar e destrancar a morte. Pelo menos... essa  
a lenda.
         verdade  afirmou Persfone.
        Como se tranca e destranca morte?  perguntei.
        As chaves tm o poder de aprisionar uma alma no 
Mundo Inferior  Persfone respondeu.  Ou libert-la.
Nico engoliu em seco.
        Se uma daquelas chaves foi presa na espada...
        Aquele que a utilizar pode ressuscitar os mortos  
Persfone completou.  Ou, com um mero toque, pode 
ceifar a vida de qualquer coisa e mandar a alma para o 
Mundo Inferior.
Estvamos todos em silncio. A gua borbotava de uma 
fonte tranquila. Criadas flutuavam  nossa volta, 
oferecendo bandejas de frutas e doces que nos 
manteriam no Mundo Inferior para sempre.
        tima espada  disse eu, afinal.
        Seria impossvel deter Hades  concordou Thalia.
        Ento esto vendo - comeou Persfone  porque 
vocs devem ajudar a recuper-la.
Eu a encarei.
        Voc disse recuper-la?
Os olhos de Persfone eram bonitos e mortalmente 
srios, como botes venenosos.
        A lmina foi roubada quando estava quase pronta. 
No sei como, mas suspeito de um semideus, algum 
servo de Cronos. Se a lmina cair nas mos do Senhor 
dos Tits...


Thalia ficou de p.
        Vocs permitiram que a lmina fosse roubada! Que 
coisa idiota, no? Provavelmente Cronos est com ela 
agora!
Ento as flechas de Thalia germinaram em rosas de talos 
longos. O arco se fundiu em uma vinha de madressilvas 
pontuadas de flores brancas e douradas.
        Cuidado, caadora!  Persfone alertou. - Seu pai 
pode ser Zeus e voc pode ser a tenente de rtemis, mas 
ningum se dirige a mim com desrespeito em meu 
prprio palcio.
Thalia trincou os dentes.
        Devolva... meu... arco.
Persfone acenou. O arco e as flechas voltaram ao 
normal.
        Agora, sente-se e oua. A espada no pode ter 
deixado o Mundo Inferior ainda. O Senhor Hades usou 
as chaves restantes para fechar o reino. Nada entra ou sai 
at que ele encontre a espada, e ele est usando todo o 
seu poder para localizar o ladro.
Thalia sentou-se, relutante.
        Ento para que voc precisa de ns?
        A procura da lmina no pode ser do conhecimento 
de todos  respondeu a deusa.  Ns trancamos o reino, 
mas no anunciamos o porqu. E os servos de Hades no 
podem ser usados na busca. Eles no podem saber que a 
lmina existe at que esteja terminada. Certamente no 
podem saber que est desaparecida.
        Se acharem que Hades est com problemas, eles 
podem desertar  sups Nico.  E podem se unir aos 
tits.
Persfone no respondeu, mas se uma deusa pode 
parecer nervosa, ela pareceu.
        O ladro tem de ser um semideus. Nenhum imortal 
pode roubar a arma de outro imortal diretamente. 
Mesmo Cronos tem de respeitar a Antiga Lei. Ele tem 
um heri aqui em algum lugar. E para pegar um 
semideus... devemos usar trs.
        Por que ns?  quis saber.
        Vocs so os filhos dos trs grandes  comeou 
Persfone.  Quem poderia resistir aos seus poderes 
combinados? Alm disso, quando vocs recuperarem a 
espada de Hades, enviaro uma mensagem ao Olimpo. 
Zeus e Poseidon no protestaro contra a nova arma de 
Hades se ela lhe for entregue por seus prprios filhos. 
Mostrar que vocs confiam em Hades.
        Mas eu no confio nele  retrucou Thalia.
        Nem eu  completei.  Por que deveramos fazer 
alguma coisa por Hades, principalmente dar a ele uma 
superarma? Certo, Nico?
Nico olhava fixamente para a mesa. Seus dedos batiam 
levemente na sua lmina negra de ferro estgio.
        Certo, Nico?  incentivei.
Levou um segundo at que ele se concentrasse em mim.
        Eu tenho de fazer isso, Percy. Ele  meu pai.
        Ah, de jeito nenhum  protestou Thalia. Voc no 
pode acreditar que isso seja uma boa idia!
Voc prefere que a espada v para as mos de Cronos? 
Esse era um bom argumento.
        O tempo est passando  disse Persfone.  O ladro 
deve ter cmplices no Mundo Inferior, e estar 
procurando por uma sada.
Franzi o cenho.
        Pensei que voc tinha dito que o reino estava trancado.
        Nenhuma priso  hermeticamente fechada, nem 
mesmo o Mundo Inferior. As almas esto sempre 
encontrando sadas, com mais rapidez do que Hades 
pode bloque-las. Vocs precisam recuperar a espada 
antes que ela deixe nosso reino, ou tudo estar perdido.
        Mesmo que quisssemos fazer isso  comeou Thalia 
, como encontraramos esse ladro?
Uma planta em um vaso apareceu na mesa: um craveiro 
amarelo, doente, com algumas folhas verdes. O cravo 
inclinava-se para o lado, como se tentasse encontrar o sol.
        Isto vai gui-los  informou a deusa.
        Um craveiro mgico?  perguntei.
        A flor sempre aponta para o ladro.  medida que sua 
presa se aproximar da fuga, as ptalas cairo.
Foi s falar e uma ptala amarela ficou cinza e caiu 
flutuando para a sujeira.
        Se todas as ptalas carem, a flor morre  explicou 
Persfone.  Isso significar que o ladro alcanou uma 
sada e que vocs falharam.
Olhei para Thalia. Ela no parecia muito entusiasmada 
com toda aquela coisa de persiga-um-ladro-com-uma-
flor. Depois olhei para Nico. Infelizmente, reconheci a 
expresso em seu rosto. Eu sabia o que era querer deixar 
o pai orgulhoso, mesmo que seu pai fosse difcil de amar. 
Neste caso, muito difcil de amar.
Nico ia executar a misso, com ou sem a gente. E eu no 
podia deix-lo sozinho.
        Uma condio  disse eu a Persfone.  Hades ter 
de jurar pelo Rio Estige que nunca usar essa espada 
contra os deuses.
A deusa deu de ombros.
        No sou o Senhor Hades, mas tenho certeza de que 
ele faria isso... como pagamento pela sua ajuda.
Outra ptala caiu do craveiro. 
Eu me virei para Thalia.
        Eu seguro a flor enquanto voc acaba com o ladro?
Ela suspirou.
Tudo bem. Vamos pegar esse idiota.

O Mundo Inferior no tinha entrado no esprito natalino. 
 medida que descamos pela estrada do palcio at o 
Campo de Asfdelos, o lugar ficava muito mais parecido 
com aquele da minha visita anterior: realmente depressi-
vo. Grama amarelada e choupos negros pouco desenvol-
vidos ondulavam a perder de vista. Sombras vagavam sem 
rumo pelas colinas, saindo do nada e indo para o nada, 
conversando entre si e tentando lembrar quem foram em 
vida. Bem acima de ns, o teto da caverna cintilava amea-
adoramente.
Eu carregava o craveiro, o que me fez sentir bem 
estpido. Nico nos guiava, j que sua lmina podia abrir 
caminho atravs de qualquer grupo de mortos-vivos. 
Thalia basicamente resmungava que ela deveria ter sido 
mais esperta em vez de sair em uma misso com dois 
garotos.
        Persfone no pareceu meio tensa?  perguntei. Nico 
atravessou um bando de fantasmas, afastando-os com a 
lmina de ferro estgio.
- Ela sempre age assim quando estou por perto. Ela me 
odeia.


        Ento por que ela o incluiu na misso?
        Provavelmente foi idia do meu pai.
Pareceu que ele queria que aquilo fosse verdade, mas eu 
no tinha tanta certeza.
Era estranho para mim o fato de que no fora o prprio 
Hades quem nos designara a misso. Se essa espada era 
to importante para ele, por que deixou que Persfone 
explicasse as coisas? Geralmente, Hades gostava de amea-
ar semideuses pessoalmente.
Nico seguiu em frente. No importava quo cheios os 
campos estivessem  e se voc j viu a Times Square na 
noite de Ano-Novo, sabe do que estou falando , os 
espritos abriam caminho diante dele.
        Ele sabe lidar com multides de zumbis  admitiu 
Thalia.  Acho que vou lev-lo comigo da prxima vez 
que eu for ao shopping.
Ela segurou firme seu arco, como se estivesse com medo 
que ele se transformasse em um ramo de madressilvas de 
novo. Thalia no parecia mais velha que no ano anterior, 
e de repente me ocorreu que ela nunca envelheceria, 
agora que era uma caadora. E isso queria dizer que eu 
era mais velho que ela. Esquisito.
        Ento  comecei , como a imortalidade est tratando 
voc?
Ela revirou os olhos.
        No  imortalidade total, Percy. Voc sabe disso. Ns 
ainda podemos morrer em combate.  que... ns nunca 
envelhecemos ou ficamos doentes, ento vivemos para 
sempre, contanto que nenhum monstro nos faa em 
pedaos.
        Isso  sempre um perigo.
        Sempre.
Ela olhava em volta, percebi que observava atentamente 
os rostos dos mortos.
        Se voc est procurando Bianca  falei rpido para que 
Nico no me ouvisse , ela deve estar nos Campos 
Elseos. Ela teve uma morte de heri.
        Eu sei  respondeu ela, rispidamente. Ento se 
recomps.  No  isso, Percy. Eu s estava... esquea.
Fui tomado por um calafrio. Lembrei que a me de 
Thalia morrera numa batida de carro alguns anos atrs. 
Elas nunca haviam sido prximas, mas Thalia no teve a 
chance de se despedir. A sombra de sua me poderia 
estar vagando por ali... Era natural que Thalia parecesse 
exaltada.
        Desculpe  disse eu. - No me toquei. Nossos olhos 
se encontraram e eu senti que ela compreendeu. Sua 
expresso suavizou.
        Tudo bem. Vamos acabar logo com isso.
Outra ptala caiu do cravo enquanto caminhvamos.
No fiquei feliz quando a flor nos indicou a direo dos 
Campos da Punio. Eu tinha esperanas de que 
pudssemos ser conduzidos para os Campos Elseos para 
estar com pessoas bonitas e festejar, mas no. A flor 
parecia gostar da parte mais difcil e cruel do Mundo 
Inferior. Pulamos um crrego de lava e seguimos 
caminho por entre horrveis cenas de tortura. No vou 
descrev-las porque voc perderia completamente o 
apetite, mas eu gostaria de estar com algodo nos ouvidos 
para bloquear os gritos e a msica dos anos 1980.
O craveiro se inclinou para uma colina  nossa esquerda.
        L em cima  disse eu.
Thalia e Nico pararam. Eles estavam cobertos de fuligem 
por caminhar pelos Campos da Punio. Acho que eu 
no estava muito melhor.
Um som alto e opressor vinha do outro lado da colina, 
como se algum puxasse uma mquina de lavar. Ento, a 
colina foi sacudida por um BOOM! BOOM! BOOM! e um 
homem xingou.
Thalia olhou para Nico.
        Esse no  quem eu estou pensando que , ?
        Acho que sim  respondeu Nico.  O maior 
especialista em enganar a morte.
Antes que eu pudesse perguntar o que Nico queria dizer, 
ele nos levou at o topo da colina.
O cara do outro lado no era bonito, e no estava feliz. 
Parecia um daqueles bonecos de troll com a pele laranja, 
barrigo, braos e pernas mirrados e com um tipo de 
tanga-fralda envolta na cintura. Seus cabelos de rato 
estavam eriados para o alto como uma tocha. Ele pulava 
de um lado para o outro, xingando e chutando uma pedra 
duas vezes maior que ele.
        No vou!  berrava.  No, no, no!
Ento, ele lanou uma sequncia de pragas em vrias 
lnguas diferentes. Se eu tivesse um daqueles potes em 
que voc coloca uma moeda para cada palavro, teria 
feito uns quinhentos dlares.
Ele comeou a se afastar da pedra, mas, depois de dez 
passos, deu uma guinada, como se uma fora invisvel o 
puxasse. Cambaleou de volta e comeou a bater com a 
cabea na pedra.
        Tudo bem!  gritou. Tudo bem, maldito seja. Ele 
coou a cabea e resmungou mais alguns palavres.
        Mas esta  a ltima vez. Voc est me ouvindo? 
Nico olhou para ns.
        Vamos. Enquanto ele no tenta de novo. 
Ns descemos a colina.
        Ssifo!  chamou Nico.
O cara de troll levantou os olhos, surpreso. Depois, 
arrastou-se para trs da pedra.
        Ah, no! Vocs no vo me fazer de idiota com esses 
disfarces. Eu sei que vocs so as Frias!
        No somos as Frias  retruquei.  S queremos 
conversar.
        Vo embora  gritou ele.  Flores no melhoram a 
situao.  muito tarde para se desculpar!
        Veja  comeou Thalia , ns queremos apenas...
        L, l, l!  berrou ele.  No estou escutando! 
Brincamos de pega-pega com ele em torno da pedra at 
que finalmente Thalia, a mais rpida, agarrou o velho 
pelos cabelos.
        Parem  choramingou ele.  Eu tenho pedras para 
empurrar. Pedras para empurrar!
        Eu empurro sua pedra!  ofereceu-se Thalia.  Apenas 
cale-se e fale com meus amigos.
Ssifo parou de resistir.
        Voc vai... vai empurrar minha pedra?
         melhor que ficar olhando para voc.  Thalia me 
olhou.  Seja rpido com isso.  Ento conduziu Ssifo 
at ns.
Ela apoiou os ombros contra a pedra e comeou a 
empurr-la bem devagar colina acima.
Ssifo fez cara feia para mim, desconfiado. Ele beliscou 
meu nariz.
        Ei!  disse eu.
        Ento voc realmente no  uma Fria  concluiu, 
maravilhado.  Para que a flor?
        Procuramos uma pessoa  respondi.  A planta est 
nos ajudando a encontr-la.
        Persfone!  Ele cuspiu na poeira.  Esse  um dos 
seus artifcios de busca, no ?  Ele se inclinou para a 
frente e senti um bafo desagradvel de velho-que-est-
rolando-uma-pedra-por-uma-eternidade.  Eu a fiz de 
boba uma vez, sabe. Eu fiz todos eles de bobos.
Olhei para Nico. 
Traduo?
        Ssifo enganou a morte  explicou Nico.  Primeiro 
ele acorrentou Tnatos, o ceifador de almas, para que 
ningum pudesse morrer. Ento, quando Tnatos se 
libertou e estava prestes a mat-lo, Ssifo disse  esposa 
que fizesse um funeral com os rituais errados, para que 
ele nunca descansasse em paz. Nosso Sissi... posso cham-
lo de Sissi?
        No!
        Sissi enganou Persfone, induzindo-a a deix-lo voltar 
para o mundo a fim de perseguir a esposa. E ele no 
retornou para c.
O velho gargalhou.
        Continuei vivo outros trinta anos antes que eles 
finalmente viessem atrs de mim!
Thalia estava na metade do caminho agora. Ela cerrava os 
dentes, empurrando a pedra com as costas. Sua expresso 
dizia: Apressem-se!
        Ento essa foi a sua punio  eu disse a Ssifo.  Rolar 
uma pedra at o alto da colina para sempre. Valeu a 
pena?
        Um retrocesso temporrio!  gritou ele.  Eu vou sair 
daqui em breve. E, quando eu sair, todos lamentaro!
        Como voc vai sair do Mundo Inferior?  perguntou 
Nico.  Est trancado, voc sabe disso.
Ssifo forou um sorriso fraco.
        Isso foi o que o outro perguntou. 
Meu estmago revirou.
        Algum mais pediu sua opinio?
        Um jovem irritado  Ssifo relembrou.  No muito 
educado. Colocou uma espada na minha garganta. No se 
ofereceu para rolar minha pedra nem nada.
        O que voc disse a ele?  quis saber Nico.  Quem 
ele era?
Ssifo massageou os ombros. Ele olhou de relance para 
Thalia, que estava quase no topo da colina. O rosto dela 
estava vermelho e encharcado de suor.
        Ah...  difcil dizer  Ssifo respondeu.  Nunca o vi 
antes. Ele carregava um pacote longo todo embrulhado 
em tecido preto. Esquis, talvez? Uma p? Quem sabe se 
vocs esperarem aqui eu possa ir procur-lo...
        O que voc disse a ele?  perguntei.
        No lembro.
Nico desembainhou sua espada. O ferro estgio era to 
frio que produziu vapor no ar quente e seco dos Campos 
da Punio.
        Faa um esforo. 
O velho estremeceu.
- Mas que tipo de pessoa carrega uma espada como 
essa?
        Um filho de Hades  disse Nico.  Agora me 
responda!
Ssifo ficou plido.
        Eu disse a ele que falasse com Melinoe! Ela sempre 
tem uma sada!
Nico baixou sua espada. Acho que o nome Melinoe o 
incomodou.
        Voc est maluco?  devolveu ele.  Isso  suicdio!
O velho deu de ombros.
        J enganei a morte antes. Posso fazer isso de novo.
        Como era esse semideus?


        Hum... ele tinha um nariz  disse Ssifo.  Uma boca. 
E um olho e...
        Um olho?  interrompi.  Ele usava tapa--olho?


 
 
 
 
 
 
 
 
        Ah... talvez  respondeu ele. Tinha cabelos na 
cabea. E...  Ele arfou e olhou por cima do meu ombro. 
 L est ele!
Ns camos nessa.
Assim que nos viramos, Ssifo escapou colina abaixo.
        Estou livre! Estou livre! Estou... ARGH!
A trs metros da colina, sua corrente invisvel estendeu-se 
ao mximo e ele caiu de costas. Eu e Nico agarramos seus 
braos e o rebocamos de volta.
        Malditos sejam!  Ele soltou xingamentos em grego 
antigo, latim, ingls, francs e muitas outras lnguas que eu 
no reconheci.  Nunca vou ajud-los! Vo para o Hades!
        J estamos nele  resmungou Nico.
        Chegando!  Thalia berrou.
Levantei os olhos e devo ter falado alguns palavres. A 
pedra descia a encosta, bem na nossa direo. Nico pulou 
para um lado. Eu pulei para outro. Ssifo gritou 
NO! enquanto a coisa fazia o caminho at 
ele. De alguma forma, tomou coragem e parou a pedra 
antes que ela passasse por cima dele. Acho que tinha 
bastante prtica.
        Pegue-a de novo  bradou ele.  Por favor. No posso 
aguentar isso.
        De novo no  ofegou Thalia.  Agora  com voc.
Ele nos tratou com uma linguagem bem pior. Estava claro 
que no ia nos ajudar mais, ento o deixamos com sua 
punio.
        A caverna de Melinoe  por aqui  disse Nico.
        Se esse tal ladro realmente tem um olho s  
ponderei , pode ser Ethan Nakamura, filho de Nmesis. 
Foi ele quem libertou Cronos.
        Eu lembro  disse Nico, sombrio.  Mas se vamos 
lidar com Melinoe, temos grandes problemas. Vamos.
Enquanto nos afastvamos, Ssifo gritava.
        Tudo bem, mas essa  a ltima vez. Esto me 
ouvindo? A ltima vez!
Thalia tremeu.
        Voc est bem?  perguntei a ela.
        Acho que...  hesitou ela.  Percy, o assustador  que, 
quando cheguei ao topo, achei que tinha acabado. 
Pensei: "Isso no  to difcil. Posso fazer a pedra ficar." E 
quando ela rolou de volta, eu quase me entusiasmei a 
tentar de novo. Achei que pudesse conseguir numa 
segunda vez.


Ela olhou para trs melancolicamente. Vamos  disse 
eu.  Quanto mais cedo sairmos daqui, melhor.

Caminhamos pelo que pareceu uma eternidade. Mais trs 
ptalas do cravo murcharam, o que significava que 
metade dele estava oficialmente morta. A flor nos 
conduziu para uma extenso de colinas cinza e 
irregulares, semelhantes a dentes. Ento caminhamos 
naquela direo, por uma plancie de rochas vulcnicas.
        Belo dia para ficar  toa  resmungou Thalia.  
Provavelmente, as Caadoras esto se banqueteando em 
alguma clareira numa floresta exatamente neste instante.
Imaginei o que minha famlia estaria fazendo. Minha me 
e meu padrasto, Paul, ficariam preocupados quando eu 
no chegasse da escola, mas no era a primeira vez que 
isso acontecia. Eles concluiriam rapidamente que eu 
estaria em alguma misso. Minha me andaria de um lado 
para o outro na sala, pensando se eu conseguiria voltar 
para abrir meus presentes.
        Ento, quem  essa Melinoe?  perguntei, tentando 
desviar meu pensamento de casa.
        Longa histria  respondeu Nico.  Longa e muito 
assustadora histria.
Eu quase perguntei o que ele queria dizer quando Thalia 
se agachou. 
- Armas!
Desembainhei Contracorrente. Tenho certeza de que eu 
parecia aterrorizante com um vaso de cravo na outra mo, 
ento o coloquei no cho. Nico desembainhou a espada.
Ficamos de costas um para o outro. Thalia preparou uma 
flecha.
        O que foi?  sussurrei.
Ela parecia estar ouvindo algo. Ento seus olhos se 
arregalaram. Um crculo de uma dzia de damones 
materializou-se em torno de ns.
Tinham o corpo parte de mulher, parte de morcego. Suas 
caras eram achatadas e raivosas, possuam caninos e olhos 
salientes. Pelo cinza desbotado e uma armadura 
fragmentada cobriam seus corpos. Tinham braos 
encolhidos com garras em vez de mos, asas de couro 
cresciam das costas e as pernas eram curtas, grossas e 
arqueadas. Elas seriam engraadas, no fosse o brilho 
assassino dos olhos.
        Queres  informou Nico.
        O qu?  perguntei.
        Espritos do campo de batalha. Elas se alimentam da 
morte violenta.
        Ah, maravilha  disse Thalia.
        Afastem-se!  ordenou Nico s damones.  O filho 
de Hades est mandando.
As Queres sibilaram. As bocas espumavam. Elas olharam 
para nossas armas, apreensivas, mas senti que no ficaram 
muito impressionadas com a ordem de Nico.
        Em breve Hades ser derrotado  uma delas rangeu 
os dentes.  Nosso novo mestre nos dar um reino livre!
Nico piscou.
        Novo mestre?
A damon lder deu o bote. Nico estava to surpreso que 
ela poderia t-lo feito em pedaos, mas Thalia atirou uma 
flecha  queima-roupa na cara feia de morcego da 
criatura, e ela se desintegrou.
O restante delas avanou. Thalia deixou o arco de lado e 
desembainhou as facas. Eu me esquivei enquanto a 
espada de Nico zuniu por cima da minha cabea, 
cortando uma das criaturas pela metade. Eu cortava e 
golpeava e trs ou quatro delas explodiram  minha volta, 
mas outras continuavam a aparecer.
        Ipeto vai amaldio-los!  uma gritou.
        Quem?  perguntei, mas ento eu a atravessei com 
minha espada.
Anote a: se voc acabar com um monstro, ele no 
poder responder a suas perguntas.
Nico tambm desenhava arcos com sua espada, 
golpeando as Queres. A lmina absorvia a essncia delas 
como um aspirador a vcuo, e quanto mais ele as 
destrua, mais frio o ar ficava ao redor. Thalia golpeou as 
costas de uma damon, atravessando-a com uma de suas 
facas, e com a outra espetou um segundo monstro sem ao 
menos virar-se para trs.
        Morra sofrendo, mortal!
Antes que eu pudesse levantar minha espada para me 
defender, as garras de uma damon rasparam em meu 
ombro. Se eu estivesse usando uma armadura, tudo bem, 
mas ainda estava com meu uniforme da escola. As garras 
da coisa abriram um corte na minha camisa e rasgaram 
minha pele. Todo o meu lado esquerdo pareceu explodir 
em dor.
Nico chutou o monstro para longe e o apunhalou. Tudo 
o que pude fazer foi cair e me encolher, tentado resistir  
terrvel queimao.
O som de batalha se extinguiu. Thalia e Nico correram 
para o meu lado.
        Aguente firme, Percy  Thalia pediu.  Voc vai ficar 
bem.
Mas a falha em sua voz me dizia que o ferimento era 
grave. Nico o tocou e eu berrei de dor.
        Nctar  disse ele.  Estou colocando nctar sobre a 
ferida.
Nico tirou a rolha do frasco com a bebida dos deuses e 
pingou um pouco pelo meu ombro. Isso era perigoso, 
pois apenas um gole do lquido  quase tudo o que um 
semideus pode suportar. Mas, imediatamente, a dor 
aliviou. Juntos, Nico e Thalia fizeram um curativo na 
ferida, e eu desmaiei somente algumas vezes.
Eu no podia saber quanto tempo se passara, mas a 
ltima coisa de que me lembro  de estar apoiado com as 
costas em uma rocha. Meu ombro estava enfaixado. Tha-
lia me alimentava com pequeninos pedaos de ambrosia 
sabor chocolate.
        As Queres?  murmurei.
        Foram embora, por enquanto  respondeu ela.  Por 
um instante, voc me deixou preocupada, Percy, mas 
acho que vai resistir.
Nico se agachou perto de ns. Ele segurava o craveiro. A 
flor s tinha mais cinco ptalas.
        As Queres vo voltar  alertou. Ele olhava para o meu 
ombro com preocupao.  Esse ferimento... as Queres 
so espritos da doena e da peste, assim como da 
violncia. Ns podemos retardar a infeco, mas em 
algum momento voc precisar de srios cuidados. Quer 
dizer, do poder divino. Ou ento...
Ele no completou o pensamento.
        Eu vou ficar bem.
Tentei me sentar e imediatamente me senti enjoado.
        Devagar  disse Thalia.  Voc precisa descansar para 
poder se mexer depois.
        No h tempo.  Olhei para o craveiro.  Uma das 
daimones mencionou Ipeto.  isso mesmo ou minha 
memria est falhando? Ele  um tit?
Thalia assentiu, desconfortvel.
        O irmo de Cronos, pai de Atlas. Ele era conhecido 
como o tit do oeste. Seu nome significa "o Perfurador", 
porque  isso que ele gosta de fazer com seus inimigos. 
Foi lanado ao Trtaro com os irmos. Ainda deveria 
estar l.
        Mas a se a espada de Hades puder destrancar morte?  
perguntei.
        Ento talvez  continuou Nico  ela tambm possa 
evocar os condenados para fora do Trtaro. Ns no 
podemos deix-los tentar isso.
        Ainda no sabemos quem eles so  lembrou Thalia.
        O meio-sangue que trabalha para Cronos  disse eu.  
Possivelmente, Ethan Nakamura. E ele est comeando a 
recrutar alguns aliados de Hades para o seu lado, como as 
Queres. As daimones acham que, se Cronos vencer a 
guerra, eles tero caos e maldade alm do combinado.
        E provavelmente esto certos  disse Nico.  Meu pai 
tenta manter o equilbrio. Ele reina sobre os espritos mais 
violentos. Se Cronos escalar um de seus irmos para ser o 
senhor do Mundo Inferior...
        Como esse Ipeto  completei.
        ...ento o Mundo Inferior vai ficar bem pior  
continuou Nico.  As Queres gostariam disso. E Melinoe 
tambm.
        Voc ainda no nos disse quem  Melinoe. 
Nico mordeu o lbio.
         a deusa dos fantasmas... uma das servas do meu pai. 
Ela controla os mortos que vagam sem descanso pela 
Terra. Todas as noites ela ascende do Mundo Inferior 
para aterrorizar mortais.
        Ela tem seu prprio caminho para o mundo, l em 
cima?
Nico assentiu.
        Duvido que possa ter sido bloqueado. Normalmente, 
ningum nunca pensaria em atravessar sua caverna. Mas 
se esse semideus for corajoso o suficiente para fazer um 
acordo com ela...
        Ele poder voltar ao mundo  emendou Thalia  e 
levar a espada a Cronos.
        Que a usaria para tirar seus irmos do Trtaro. E ns 
teramos um grande problema  conclu.
Tentei ficar em p. Uma onda de enjo quase me fez 
desmaiar, mas Thalia me amparou.
        Percy  comeou ela , voc no est em condies...
        Tenho de estar.  Observei enquanto mais uma ptala 
murchava e caa do cravo. Faltavam quatro para o fim dos 
dias.  Me d a planta. Temos de encontrar a caverna de 
Melinoe.

Enquanto caminhvamos tentei pensar em coisas 
positivas: meus jogadores de basquete favoritos, minha 
ltima conversa com Annabeth, o que minha me faria 
para o jantar de Natal  qualquer coisa menos a dor. 
Mesmo assim, eu sentia como se um tigre-dentes-de-sabre 
estivesse mastigando meu ombro. Eu no ia ser muito til 
numa luta, e me amaldioava por ter baixado a guarda. 
Nunca deveria ter sido ferido. Agora Thalia e Nico teriam 
de rebocar meu traseiro intil pelo restante da misso.
Eu estava to ocupado me lamentando que no notei o 
som de gua em movimento at Nico dizer "Oh-oh".
Cerca de quinze metros  nossa frente, um rio escuro 
corria com violncia por uma garganta de rocha 
vulcnica. Eu j tinha visto o Estige, e este no parecia o 
mesmo rio. Era estreito, a correnteza, veloz. A gua era 
negra como nanquim. At a fumaa produzida era negra. 
A margem oposta mais distante estava apenas a nove 
metros, muito longe para saltarmos, e no havia ponte.
        O Rio Lete  Nico amaldioou em grego antigo.  
Nunca vamos atravess-lo.
A flor apontava para o outro lado: na direo de uma 
montanha obscura e de um caminho para a caverna. 
Alm da montanha, os muros do Mundo Inferior 
assomavam como um cu de granito negro. Eu no 
imaginara que o Mundo Inferior pudesse ter uma 
fronteira, mas era o que aqueles muros pareciam ser.
        Tem de haver um meio de atravess-lo  falei. 
Thalia se ajoelhou prximo  margem.
        Cuidado!  alertou Nico.  Esse  o Rio do 
Esquecimento. Se uma gota da gua respingar, voc 
comear a esquecer quem .
Thalia recuou.
        Conheo esse lugar. Luke me falou dele uma vez. As 
almas vm aqui quando escolhem renascer, para 
esquecer totalmente suas vidas anteriores.
Nico assentiu.
        Nade nessa gua e sua mente ser apagada. Voc ser 
como um beb recm-nascido.
Thalia estudou a margem oposta.
        Eu poderia atirar uma flecha para o outro lado, talvez 
ancorar uma corda em uma daquelas pedras.
        Voc quer confiar seu peso a uma corda que no est 
amarrada?  perguntou Nico.
Thalia levantou as sobrancelhas.
        Tem razo. Funciona nos filmes, mas... no. Voc 
pode evocar alguns mortos para nos ajudarem?
        Eu poderia, mas eles s apareceriam no meu lado do 
rio. gua corrente age como uma barreira para os mortos. 
Eles no podem atravess-la.
Eu me encolhi.
        Que tipo de regra idiota  essa?
        Ei, eu no inventei isso.  Ele estudou meu rosto.  
Voc est horrvel, Percy. Deveria se sentar.
        No posso. Vocs precisam de mim para isso.
        Para qu?  perguntou Thalia.  Voc mal consegue 
ficar em p.
         gua, no ? Vou ter de control-la. Talvez eu possa 
mudar seu curso tempo suficiente para que a gente 
consiga atravessar.
        Nas suas condies?  disse Nico.  De jeito nenhum. 
Eu me sentiria mais seguro com a idia da flecha.
Cambaleei at a beira do rio.
Eu no sabia se conseguiria fazer aquilo. Eu era filho de 
Poseidon, ento controlar gua salgada no era problema. 
Rios comuns... talvez, se os espritos do rio quisessem 
cooperar. Mas rios mgicos do Mundo Inferior? Eu no 
tinha idia.
        Afastem-se  pedi.


Eu me concentrei na correnteza: a barulhenta gua negra 
que passava com velocidade. Eu a imaginei como parte 
do meu corpo. Poderia controlar o fluxo, faz-lo atender 
 minha vontade.
No tinha certeza, mas achei que a gua batia e 
borbulhava com mais violncia, como se pudesse sentir 
minha presena. Eu sabia que no conseguiria parar todo 
o rio de uma s vez. A gua represada inundaria o vale 
todo, explodindo em nossa direo assim que eu a 
liberasse. Mas havia outra soluo.
 Isso no vai ser fcil  murmurei.
Ergui meus braos como se levantasse alguma coisa acima 
da minha cabea. Meu ombro ferido queimou como 
lava, mas tentei ignor-lo.
O rio se ergueu. A correnteza elevando-se das margens 
formava um grande arco. Era um barulhento arco de gua 
negra de seis metros de altura. O leito do rio  nossa 
frente se tornou lodo seco, um tnel no meio da gua 
apenas largo o suficiente para duas pessoas caminharem 
lado a lado.
Thalia e Nico me encararam maravilhados.
Vo. No vou conseguir sustentar isso por muito tempo.
Pontos amarelos danavam em frente aos meus olhos. 
Meu ombro ferido quase gritava de dor. Thalia e Nico 
caminharam com dificuldade para o leito do rio e 
seguiram em frente pelo lodo pegajoso.
Nem uma nica gota. No posso deixar que nem uma 
nica gota d'gua respingue neles.
O Rio Lete lutou comigo. Ele no queria ser arrancado 
de suas margens. Queria despencar sobre meus amigos, 
apagar suas mentes e afog-los. Mas sustentei o arco.
Thalia, do outro lado, subiu para a margem e se voltou 
para ajudar Nico.
        Venha, Percy!  chamou ela.  Ande!
Meus joelhos vibravam. Meus braos tremiam. Dei um 
passo  frente e quase ca. O arco de gua estremeceu.
        No posso!  gritei de volta.
        Sim, voc pode!  retrucou ela.  Ns precisamos de 
voc!
De alguma forma, consegui descer para o leito do rio. 
Um passo, depois outro. Acima, a gua. Minhas botas 
chapinhavam no lodo.
Na metade do caminho, eu tropecei. Ouvi Thalia gritar 
"No!". E perdi minha concentrao.
Enquanto o Rio Lete desabava sobre mim, tive tempo 
para um ltimo e desesperado pensamento: Seco.
Ouvi o bramido e senti o impacto de toneladas de gua  
medida que o rio retomava seu curso natural. Mas...
Abri os olhos. Eu estava envolto em escurido, mas 
continuava completamente seco. Uma camada de ar me 
cobria como uma segunda pele, protegendo-me da gua. 
Eu me esforcei para ficar de p. Mesmo esse pequeno 
esforo para ficar seco  algo que j fiz muitas vezes em 
guas normais  foi quase mais do que eu podia aguentar. 
Avancei com dificuldade pela correnteza negra, cego e 
duas vezes mais dolorido.
Subi para a margem do Lete, surpreendendo Thalia e 
Nico, que pularam um bom metro para trs. Cambaleei 
para a frente, ca diante de meus amigos e desmaiei, 
gelado.

O gosto do nctar me fez despertar. Meu ombro parecia 
melhor, mas havia um zumbido desconfortvel em meus 
ouvidos. Meus olhos ardiam como se eu estivesse com 
febre.
        No podemos arriscar com mais nctar  Thalia dizia. 
 Ele vai explodir em chamas.
        Percy  chamou Nico.  Voc pode me ouvir?
        Chamas  murmurei.  Entendi.
Eu me sentei devagar. Meu ombro tinha novas 
bandagens. Ainda doa, mas eu podia ficar de p.
        Estamos perto  disse Nico.  Voc consegue andar?
A montanha assomava acima de ns. Uma trilha de 
poeira se insinuava por uns trinta metros at a entrada de 
uma caverna. O caminho era pavimentado com ossos 
humanos, para dar um clima aconchegante.
        Estou pronto  disse eu.
        No gosto disso  resmungou Thalia.
Ela segurava com cuidado o craveiro, que apontava na 
direo da caverna. A flor tinha agora duas ptalas, como 
se fossem duas tristes orelhas de coelho.
        Uma caverna assustadora  comentei.  A deusa dos 
fantasmas. D para piorar?
Em uma espcie de resposta, o som de um assobio ecoou 
da montanha. Uma nvoa branca veio da caverna, como 
se algum tivesse ligado uma mquina de gelo seco.
Na neblina, uma imagem apareceu: uma mulher alta com 
cabelos louros e desgrenhados. Ela vestia um roupo de 
banho e tinha uma taa de vinho na mo. Seu rosto era 
severo e desaprovador. Eu podia enxergar atravs dela, 
ento sabia que era algum tipo de esprito, mas sua voz 
soava bastante real.
        Agora voc volta  rosnou ela.  Bom,  tarde 
demais!
Olhei para Nico.
        Melinoe?  sussurrei.
Ele no respondeu. Estava esttico, encarando o esprito.
Thalia baixou o arco.
        Me?  Seus olhos se encheram de gua. De repente, 
ela parecia ter uns sete anos.
O esprito jogou no cho a taa de vinho, que se 
estilhaou e desapareceu na neblina.
        Isso mesmo, menina. Condenada a vagar pela Terra, e 
isso  culpa sua! Onde voc estava quando eu morri? Por 
que fugiu quando precisei de voc?
        Eu... eu...
        Thalia  chamei , ela  apenas um fantasma. No 
pode machucar voc.
        Sou mais que isso  rosnou o esprito.  Thalia sabe.
        Mas... voc me abandonou Thalia argumentou.
        Menina desprezvel! Fugitiva ingrata!
        Pare!  Nico deu um passo  frente com a espada 
desembainhada, mas o esprito mudou de forma e o 
encarou.
Este fantasma era mais difcil de enxergar. Era uma 
mulher em um vestido de veludo negro fora de moda, 
com um chapu combinando. Usava colar de prolas e 
luvas brancas, e seus cabelos escuros estavam presos para 
trs.
Nico parou onde estava.
        No...
        Meu filho  disse o fantasma.  Morri quando voc 
era to pequeno. Eu assombro o mundo com pesar, 
pensando em voc e em sua irm.
        Mame?
        No,  minha me  murmurou Thalia, como se ela 
ainda visse a primeira imagem.
Meus amigos estavam indefesos. A neblina comeou a 
ficar espessa em volta de seus ps, enrolando-se em suas 
pernas como se fosse uma videira. As cores pareciam 
sumir de suas roupas e do rosto, como se eles tambm vi-
rassem sombras.
        Chega  disse eu, mas minha voz mal saiu. Apesar da 
dor, levantei minha espada e andei em direo ao 
fantasma. Voc no  me de ningum!
O fantasma se virou para mim. A imagem tremeluziu e eu 
vi a deusa em sua verdadeira forma.
Voc poderia pensar que depois de algum tempo eu no 
fosse mais me apavorar com a aparncia dos monstros 
gregos, mas Melinoe me pegou de surpresa. Sua metade 
direita era plida, da cor do giz branco, como se tivessem 
drenado todo o seu sangue. A metade esquerda era negra 
como piche e sem vida, parecia uma pele de mmia. Ela 
usava vestido e vu dourados. Seus olhos eram rbitas 
negras, vazias, e quando eu olhei l dentro tive a sensao 
de ver minha prpria morte.
        Onde esto seus fantasmas?  quis saber ela, irritada.
        Meus... eu no sei. No tenho nenhum. 
Ela reclamou.
        Todo o mundo tem fantasmas... Mortes que voc 
lamenta. Culpa. Medo. Por que no consigo ver os seus?
Thalia e Nico ainda estavam hipnotizados, encarando a 
deusa como se ela fosse a me que h muito eles 
perderam. Pensei em outros amigos que eu tinha visto 
morrer: Bianca di Angelo, Zo Doce-Amarga, Lee 
Fletcher, para citar alguns.
        Estou em paz com eles  respondi.  Fizeram a 
passagem. No so fantasmas. Agora, liberte meus 
amigos!
Ataquei Melinoe com minha espada. Ela se afastou 
rpido, rosnando de frustrao. A neblina ao redor de 
Thalia e Nico se dissipou. Eles olhavam para a deusa e 
piscavam como se s agora vissem quanto ela era 
medonha.
        O que  isso! Thalia quis saber.  Onde...
        Era um truque  Nico respondeu.  Ela nos enganou.
        Vocs esto muito atrasados, semideuses  informou 
Melinoe. Outra ptala caiu do craveiro, restando apenas 
uma.  O acordo foi feito.
        Que acordo?  perguntei.
Melinoe sibilou e eu entendi que essa era a sua maneira 
de rir.
        So tantos fantasmas, meu jovem semideus. Eles 
desejam ser livres. Quando Cronos comandar o mundo, 
estarei livre para andar entre os mortais durante o dia e a 
noite, semeando o terror como eles merecem.
        Onde est a espada de Hades?  insisti.  Onde est 
Ethan?
        Perto daqui  assegurou ela.  No deterei vocs. No 
ser preciso. Em breve, Percy Jackson, voc ter muitos 
fantasmas. E se lembrar de mim.
Thalia armou uma flecha e mirou na deusa.
        Se voc abrir uma passagem para o mundo, acha 
mesmo que Cronos vai recompens-la? Ele vai lan-la 
no Trtaro com o restante dos servos de Hades.
Melinoe mostrou os dentes.
        Sua me estava certa, Thalia. Voc  uma menina 
cheia de raiva. Boa em fugir. Nada alm disso.
A flecha voou, mas, assim que Melinoe a deusa dissolveu-
se em neblina, deixando para trs apenas o silvo de sua 
risada. A flecha atingiu as rochas e se partiu, inofensiva.
        Fantasma idiota  resmungou Thalia.
Eu podia jurar que ela estava realmente abalada. Os olhos 
pareciam avermelhados. As mos tremiam. Nico tambm 
estava impressionado, como se tivesse sofrido uma grande 
desiluso.
        O ladro...  ele conseguiu dizer.  Provavelmente 
est na caverna. Precisamos det-lo antes que...
Naquele instante, a ltima ptala do cravo caiu. A flor 
ficou preta e murcha.
        Tarde demais  disse eu.
Uma gargalhada masculina ecoou da montanha.
        Est certo quanto a isso  rugiu a voz.
Na boca da caverna estavam duas pessoas: um garoto com 
tapa-olho e um homem de trs metros vestido com um 
esfarrapado macaco de prisioneiro. O garoto eu 
reconheci: era Ethan Nakamura, filho de Nmesis. Tinha 
nas mos uma espada inacabada, uma lmina dupla de 
ferro estgio negro com desenhos de esqueletos gravados 
em prata. Ela no tinha guarda, mas na base da lmina 
havia uma chave dourada, exatamente como a que eu vira 
na imagem de Persfone.
O homem gigante ao lado dele tinha olhos inteiramente 
prateados. Seu rosto era coberto por uma barba falhada e 
seus cabelos grisalhos eram completamente bagunados. 
Ele parecia magro e cansado em suas roupas rasgadas, 
como se tivesse passado os ltimos milnios no fundo de 
um abismo, e mesmo nesse estado debilitado parecia 
bastante assustador. Ele estendeu a mo e uma lana 
gigante apareceu. Lembrei o que Thalia dissera sobre 
Ipeto: Seu nome significa "o Perfurador" porque  isso 
que ele gosta de fazer com os inimigos.
O tit sorriu cruelmente.
        E agora vou destruir vocs.

 Mestre!  interrompeu Ethan. Ele estava vestido com 
uniforme de combate e tinha uma mochila pendurada 
nas costas. Seu tapa-olho estava torto, e o rosto, sujo de 
ferrugem e suor.  Ns temos a espada. Devamos...
        Sim, sim  o tit retrucou, impaciente.  Voc se saiu 
bem, Nawaka.
         Nakamura, mestre.
        Que seja. Tenho certeza de que meu irmo Cronos vai 
recompens-lo. Mas agora temos uma matana para 
cumprir.
        Meu senhor  insistiu Ethan.  Seu poder no est 
completamente restabelecido. Devemos subir e convocar 
seus irmos do mundo l em cima. As ordens eram para 
fugirmos.
O tit virou-se para ele.
        FUGIR? Voc disse FUGIR!
O cho retumbou. Ethan despencou sentado e arrastou-se 
para trs. A espada inacabada de Hades caiu sobre as 
pedras.


        M-m-mestre, por favor...
        IPETO NO FOGE! Esperei trs eras para ser evocado 
do abismo. Eu quero vingana, e vou comear matando 
esses fracotes.
Ele apontou a lana para mim e atacou.
Se estivesse no auge da fora, no tenho dvidas de que 
teria me perfurado em cheio. Mesmo fraco e tendo 
acabado de sair do abismo, o cara era rpido. Ele se 
moveu como um tornado e atacou to rapidamente que 
mal tive tempo de me esquivar antes que a lana se 
cravasse na pedra onde eu estava.
Eu me sentia muito tonto e mal podia segurar minha 
espada. Ipeto arrancou a lana do cho, mas quando se 
virou para mim, Thalia encheu seu flanco de flechas, do 
ombro ao joelho. Ele rugiu e se virou para ela, parecia 
mais irado que machucado. Ethan Nakamura tentou 
desembainhar sua espada, mas Nico gritou: "Melhor no.
O cho se abriu diante de Ethan. Trs esqueletos em 
armaduras emergiram e o atacaram, empurrando-o para 
trs. A espada de Hades continuava repousada nas 
pedras. Se eu pudesse s chegar at ela...
Ipeto golpeou com sua lana e Thalia se esquivou. Ela 
deixou cair o arco para desembainhar suas facas, mas no 
resistiria muito no combate corpo a corpo.
Nico deixou Ethan para os esqueletos e avanou na 
direo de Ipeto. Eu j estava  frente dele. Parecia que 
meu ombro ia explodir, mas me lancei contra o tit e, 
com um golpe de cima para baixo, cravei a lmina de 
Contra-corrente em sua panturrilha.
        AHHHHRRRR!
Icor dourado jorrou da ferida. Ipeto girou e o cabo de 
sua lana me atingiu, me atirando longe.
Eu bati contra as pedras, bem ao lado do Rio Lete.
        VOC MORRE PRIMEIRO!  Ipeto berrou enquanto 
mancava na minha direo. Thalia tentou chamar a 
ateno dele atingindo-o com um arco eltrico produzido 
por suas facas, mas isso tambm deve ter surtido o efeito 
de uma picada de mosquito. Nico desferiu um golpe com 
sua espada, mas Ipeto o atirou para o lado sem nem 
olhar.  Vou matar vocs todos! Depois lanarei suas 
almas na escurido eterna do Trtaro!
Eu estava vendo estrelas. Mal conseguia me mexer. Dois 
centmetros mais, e teria mergulhado de cabea no rio. O 
rio.
Engoli em seco, torcendo para que minha voz ainda 
tivesse fora.
        Voc ... voc  ainda mais feio que seu filho  
provoquei o tit.  Posso ver de quem Atlas herdou sua 
estupidez.
Ipeto rangeu os dentes. Ele avanou mancando, sua 
lana erguida.
Eu no sabia se teria foras, mas precisava tentar. Ipeto 
baixou a lana e esquivei-me para o lado. A ponta fincou--
se no cho, bem prximo a mim. Eu me estiquei e agarrei 
a gola de sua camisa, contando com o fato de que ele 
estava ferido e sem equilbrio. Ele tentou manter-se de 
p, mas eu o puxei para a frente com todo o peso do meu 
corpo. Ele cambaleou e caiu, agarrado a meus braos, em 
pnico, e juntos mergulhamos no Lete.
BLOOOOOM! EU estava imerso em gua negra.
Rezei a Poseidon que minha proteo no se desfizesse, 
e, enquanto afundava, percebi que ainda estava seco. Eu 
sabia meu nome. E ainda segurava o tit pela gola da 
camisa.
A corrente deveria t-lo feito escapar de minhas mos, 
mas, de algum modo, o rio formava um canal  minha 
volta, deixando-nos em paz.
Com o pouco de fora que me restava, subi para a beira 
do rio, puxando Ipeto com meu brao bom. Ns 
tombamos na margem  eu perfeitamente seco e o tit 
pingando. Seus olhos inteiramente prateados estavam 
grandes feito a lua.
Thalia e Nico me observavam maravilhados. L na 
caverna, Ethan Nakamura derrubava o ltimo esqueleto.
Ele se virou e ficou paralisado ao ver seu aliado tit cado 
de braos abertos no cho.
        Meu... meu senhor?  chamou ele.
Ipeto se sentou e fixou o olhar em Ethan. Ento, olhou 
para mim e sorriu.
        Oi  disse ele.  Quem sou eu?
        Voc  meu amigo  soltei.  Voc  o... Bob. Isso 
pareceu agrad-lo bastante.
        Eu sou o seu amigo Bob!
Claramente, Ethan podia ver que as coisas no estavam 
boas para o seu lado. Ele deu uma olhada para a espada 
de Hades repousada na poeira. Mas, antes que pudesse 
dar o bote, uma flecha de prata fincou-se no cho a seus 
ps.
        Nem pensar, garoto  Thalia o alertou.  Mais um 
passo, e eu prego seus ps nas rochas.
Ethan correu... direto para a caverna de Melinoe. Thalia 
mirou suas costas, mas eu disse:
        No. Deixe ele ir.
Ela franziu as sobrancelhas, mas baixou seu arco.
Eu no sabia por que quis poupar Ethan. Acho que j 
tnhamos lutado o bastante para um dia, e, na verdade, eu 
sentia pena dele. Ele estaria numa grande encrenca quan-
do voltasse para falar com Cronos.
Nico recolheu a espada de Hades respeitosamente.
        Conseguimos. Ns realmente conseguimos.


        Conseguimos?  perguntou Ipeto.  Eu ajudei?
Forcei um sorriso.
        Sim, Bob. Voc se saiu muito bem.
 
Conseguimos uma viagem expressa para o palcio de Ha-
des. Nico mandou um aviso, graas a alguns fantasmas 
que ele evocou de debaixo da terra. E em poucos 
minutos as Trs Frias em pessoa chegaram para nos 
transportar de volta. Elas no estavam muito animadas em 
carregar tambm Bob, o tit, mas no tive coragem de 
deix-lo para trs, especialmente depois que ele notou o 
ferimento no meu ombro, disse "Awn" e curou-o com um 
toque.
Enfim, na hora em que chegamos  sala do trono de 
Hades, eu me sentia timo. O senhor dos mortos sentou-
se em seu trono de ossos, com o olhar fixado em ns e 
acariciando a barba negra como se estivesse imaginando a 
melhor maneira de nos torturar. Persfone sentou-se a 
seu lado, sem falar nada, enquanto Nico explicava nossa 
aventura.
Antes que lhe entregssemos a espada, insisti para que 
Hades fizesse o juramento de no us-la contra os deuses. 
Seus olhos chamejaram como se ele quisesse me 
incinerar, mas finalmente ele fez a promessa, com os 
dentes cerrados.
Nico repousou a espada aos ps do pai e fez uma 
reverncia, esperando por uma reao.
Hades olhou para a esposa.
        Voc desafiou minhas ordens diretas.
Eu no sabia sobre o que ele estava falando, mas 
Persfone no reagiu, mesmo sob seu olhar fulminante.
Hades se voltou para Nico. Seu olhar abrandou s um 
pouco, como se pedra fosse mais macia que ao.
        Voc no vai falar sobre isso com ningum.
        Sim, senhor  Nico concordou.
O deus lanou-me um olhar penetrante.
        E se os seus amigos no segurarem as lnguas, eu vou 
cort-las fora.
        Como queira  falei.
Hades fixou-se na espada. Seus olhos estavam cheios de 
raiva e de algo mais... algo como apetite. Ele estalou os 
dedos. As Frias desceram voando do topo do seu trono.
        Devolvam a lmina s forjas  ele disse.  Fiquem 
com os ferreiros at que ela esteja pronta, e ento tragam-
na de volta a mim.
As Frias subiram em crculos com a arma, e fiquei 
pensando quanto tempo ia levar at que eu me 
arrependesse daquele dia. Havia brechas em juramentos, 
e calculei que Hades procuraria por uma.
        Voc  sbio, meu senhor  disse Persfone.
        Se fosse sbio  rosnou ele , eu a trancaria nos seus 
aposentos. Se voc me desobedecer de novo...
Ele deixou a ameaa pairando no ar. Depois estalou os 
dedos e sumiu na escurido.
Persfone parecia ainda mais plida que o normal. Levou 
um tempo arrumando o vestido e depois se virou para 
ns.
        Vocs se saram bem, semideuses.  Ela acenou e trs 
rosas vermelhas apareceram aos nossos ps.  Esma-
guem-nas e elas os levaro de volta ao mundo dos vivos. 
Vocs tm a gratido do meu senhor.
        Imagino  resmungou Thalia.
        Forjar a espada foi idia sua  percebi.  Por isso 
Hades no estava l quando voc nos deu a misso. 
Hades no sabia que a espada tinha sumido. Ele nem 
sabia que ela existia.
        Absurdo  retrucou a deusa. 
Nico cerrou os punhos.
        Percy est certo. Voc queria que Hades forjasse uma 
espada. Ele disse que no. Ele sabia que era muito 
perigoso. Os outros deuses nunca confiariam nele. Isso 
afetaria o equilbrio de poder.
        E a ela foi roubada  completou Thalia.  Voc 
trancou o Mundo Inferior, no Hades. Voc no podia 
contar a ele o que havia acontecido. E precisava de ns 
para recuperar a espada antes que Hades descobrisse. 
Voc nos usou.
Persfone umedeceu os lbios.
        O importante  que agora Hades aceitou a espada. Ela 
ficar pronta e meu marido se tornar to poderoso quan-
to Zeus ou Poseidon. Nosso reino estar protegido contra 
Cronos... ou contra qualquer outro que tente nos 
ameaar.
        E ns somos responsveis por isso  conclu, infeliz.
        Vocs foram muito teis  Persfone concordou.
        Talvez uma recompensa pelo seu silncio...
        Deixe a gente em paz, antes que eu a leve para o Lete 
e a jogue l dentro. Bob vai me ajudar. No , Bob?
        Bob vai ajudar voc!  concordou Ipeto alegremente.
Os olhos de Persfone se arregalaram, e ela desapareceu 
em uma chuva de margaridas.

Nico, Thalia e eu nos despedimos numa sacada com vista 
para os Asfdelos. Bob, o tit, ficou sentado l dentro, 
construindo uma casinha com ossos e rindo cada vez que 
ela desmoronava.
        Cuidarei dele  disse Nico.  Ele  inofensivo agora. 
Talvez... no sei. Talvez possamos transform-lo em 
alguma coisa boa.
        Tem certeza de que quer ficar aqui?  perguntei.
        Persfone far da sua vida um inferno.
        Eu preciso  insistiu ele. Tenho que me aproximar 
do meu pai. Ele precisa de um conselheiro melhor.
No pude argumentar contra isso.
        Bom, se voc precisar de alguma coisa...
        Eu chamo  prometeu ele.  Ele apertou a mo de 
Thalia e a minha. Virou-se para ir embora, mas me olhou 
mais uma vez.  Percy, voc esqueceu minha oferta?
Um calafrio desceu pela minha espinha.
        Ainda estou pensando no assunto. 
Nico assentiu.
        Bem, quando voc estiver pronto. 
Depois que ele saiu, Thalia perguntou:
        Que oferta?
        Uma coisa que ele me disse no vero passado  
respondi.  Uma possvel maneira de enfrentar Cronos.  
perigoso. E eu j vivi perigo demais num nico dia.
Thalia concordou.
        Nesse caso, ainda h tempo para o jantar? 
No pude fazer nada alm de sorrir.
        Depois de tudo isso, voc est com fome?
        Ei, at os imortais precisam comer. Estou pensando 
em cheeseburgers na McHalls.
E juntos pisamos as rosas que nos levariam de volta para o 
mundo.

 



HORIZONTAIS


1.         O bon de Annabeth faz com que ela fique dessa 
maneira
2.         Tyson, o meio-irmo de Percy  um ____        
3.         Deus do mar
4.         Diretor de atividades do Acampamento Meio-Sangue
5.         Prima de Percy, filha de Zeus
6.         O cabelo da Medusa
7.         Ms de aniversrio de Percy
8.         Demetr  a deusa da ___        
9.         Deus dos cus
10.         Aluno do primeiro ano, assim como Percy
11.         Luke  um dos filhos deste deus
12.         Esposa de Zeus
13.         Tambm conhecidas como "as Benevolentes"
14.         Grover  um ___        
15.        Outro nome para meio-sangue




VERTICAIS


1.        Dr.        (monstro que aparece em A maldio do 
Tit)
2.         Me de Annabeth
3.         Espada mgica de Percy Jackson
4.         Acampamento frequentado por Percy e seus amigos
5.         Annabeth morre de medo dessas criaturas
6.         Monstro que  metade homem, metade touro
7.         Afrodite  a deusa do___        
8.         As ___ Parcas
9.         Senhor dos Tits 
10.        Menina esquentadinha e brigona, filha de Ares
11.         Governa o Mundo Inferior
12.         Zeus, Poseidon e Hades so ___
13.         A me de Percy adora comidas que tm essa cor
14.         Elemento que Percy controla
15.         Melhor amigo de Percy



(Soluo na pgina 166)

 





ANNABETH 
BRIAREU 
CALIPSO 
CAMPE
CO INFERNAL 
CLARISSE
CONTRACORRENTE
CRONOS
DDALO
ESTIGE
GERON
GROVER
HERA
JANO
LABIRINTO
LUKE
MINOS
MORDECOSTAS 
NICO
OLIMPIANOS 
P
PERCY
POSEIDON
QURON
RACHEL
RICK RIORDAN
TIT
TYSON
(Soluo na pgina 167)
 

 

 





 
